Forum Permanente em Defesa da Vida

 

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POR UM BRASIL ECOLÓGICO,
LIVRE DE TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS
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Número 485 - 17 de abril de 2010
 
Paraná confirma contaminação transgênica do milho
 
Car@s Amig@s,
 
Dois estudos divulgados esta semana reforçam que a coexistência de plantações transgênicas com as demais é impossível e que as sementes modificadas requerem doses crescentes de agrotóxicos com o passar do tempo.
 
O primeiro dos estudos foi realizado pela Secretaria de Agricultura do Paraná - SEAB na safrinha de 2009 e teve como objetivo monitorar a contaminação do milho comum pelo transgênico (detalhes abaixo). Foi comprovada contaminação das espigas do milho convencional variando de 0,1% a mais de 5% dependendo da distância. A lavoura convencional estava isolada da transgênica por uma bordadura de 25 metros de milho comum. Na maior das distâncias testadas, 120 metros, foram encontrados grãos com 1,3% de contaminação.
 
A situação avaliada a campo era mais rigorosa do ponto de vista de isolamento entre os diferentes tipos de milho do que a regra criada pela CTNBio, que determina bordadura de 10 metros de milho convencional mais 20 metros de terreno limpo, ou, alternativamente, 100 metros limpos. Ou seja, a SEAB mostrou que a regra da douta comissão de nada serve para evitar a contaminação do milho. Azar dos consumidores e produtores que não querem transgênicos.
 
Quando da publicação da regra que criou o ineficaz isolamento do milho, a CTNBio foi bastante criticada, inclusive internamente, pois já se sabia que os critérios adotados padeciam de sustentação técnica. Mas a maioria de seus experts formou convicção a partir de estudo feito na Espanha a pedido de setores da biotecnologia. Segundo este, a 20 metros a contaminação seria menor que 1%. A SEAB encontrou de 4,4% a 90 metros. O Ministério da Agricultura, por sua vez, informou que a contaminação seria de 0,002 a 120 metros. A SEAB encontrou 1,3% nesta distância.
 
O segundo estudo foi realizado pelo Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA, órgão ligado à Academia Nacional de Ciências do país, com o objetivo de ser a mais ampla das revisões já feitas sobre os impactos decorrentes do plantio de transgênicos. Sua principal conclusão foi a de que o meio ambiente e os produtores puderam desfrutar substanciais vantagens resultantes do plantio das sementes modificadas, mas que o uso repetido da tecnologia ameaça erodir esses ganhos.
 
Professor da Universidade de Portland e presidente do comitê que elaborou o estudo, David Ervin ressalta que esses ganhos não são universais a todos os produtores e nem permanentes. Como há muito frisamos neste boletim, o relatório também afirma que ao longo do tempo cresce o uso de herbicidas à base de glifosato e também o emprego de outros produtos ainda mais tóxicos.
 
O pesquisador do Organic Center Charles Benbrook revisou uma das versões preliminares do estudo e criticou o fato de a maioria dos dados usados serem relativos aos anos iniciais de adoção da tecnologia. Isto é, antes da proliferação de seus problemas, como o mato resistente ao herbicida, e antes da disparada dos preços das sementes transgênicas.
 
Tanto as empresas vinham abusando da dobradinha quase-monopólio e preços altos, que o feitiço começou a virar contra o feiticeiro. Os produtores estadunidenses passaram a questionar a validade de seguir plantando essas sementes. A dúvida gerou diminuição nas vendas de sementes e a Monsanto nos Estados Unidos anunciou na semana passada que reduziria o preço de suas novas sementes transgênicas.
 
A CTNBio, quando liberou a soja da Monsanto, afirmou que “A introdução de cultivares tolerantes ao Glifosate não aumentará a pressão de seleção sobre as plantas daninhas, em termos de concentração do Glifosate (produto/área)”, ou seja, disse que o desenvolvimento de mato resistente não levaria os produtores a usarem cada vez mais veneno para controlá-lo. Mesmo antes do advento dos transgênicos já era amplamente sabido que o uso repetido de um determinado agrotóxico sobre uma planta ou um inseto qualquer o leva a desenvolver resistência com o tempo.
 
Nem para o caso da contaminação do milho, nem para o uso crescente de herbicidas pode-se dizer que a CTNBio errou. Fosse erro ou faltassem a seus integrantes informações como essas, eles correriam para corrigi-los. Enquanto isso, o governo segue com sua conivente omissão.
 
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A discussão sobre arroz transgênico, anunciada no Boletim 484, foi mais uma vez adiada pela CTNBio, devendo ficar para maio. Ou então para junho, aproveitando que as atenções estarão voltadas para a Copa do Mundo.
 
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Neste número:
 
1. Contaminação por transgênicos põe em risco o meio ambiente e viola o Direito dos Agricultores
2. Uso repetido de sementes transgênicas ameaça lucros, afirma estudo
3. Para professor da USP, efeitos precisam ser estudados no longo prazo 
4. Agrotóxicos: o consumidor tem direito de saber o que come
5. Mais agrotóxicos irregulares
 
A alternativa agroecológica
 
Paraíba: Agricultores rejeitam agrotóxicos contra mosca negra do citros
 
Dica de evento
 
Conferência com Michael Hansen, pesquisador da Cosumers Union - Segurança dos alimentos: o que o mundo está discutindo a respeito de transgênicos e agrotóxicos.
 
Dia 26 de abril a partir das 13:30h no auditório do Conselho Regional de Medicina de São Paulo. Rua da Consolação, 753. São Paulo - SP.
 
 
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1. Contaminação por transgênicos põe em risco o meio ambiente e viola o Direito dos Agricultores
 
Secretaria de Agricultura do Paraná divulga estudo comprovando contaminação do milho convencional distante até 120 metros do transgênico e isolado por 25 metros de milho comum. A CTNBio criou regra afirmando que seriam necessários apenas 10 metros de bordadura e mais 20 m de isolamento para se evitar a contaminação. O estudo inédito do Paraná faz cair por terra a suposta validade científica da regra da CTNBio. A contaminação das espigas coletadas a 120 metros chegou a 1,3%. Para o Ministério da Agricultura contaminação seria de 0,002 a 120 metros; já para a CTNBIo, contaminação a 20 metros seria menor que 1%, enquanto a Seab apurou mais de 5%.
 
 
2. Uso repetido de sementes transgênicas ameaça lucros, afirma estudo
 
As sementes geneticamente modificadas ofereceram benefícios ambientais e econômicos “substanciais” aos fazendeiros norteamericanos, mas o uso excessivo da tecnologia ameaça arruinar os lucros, afirma o relatório de uma organização de consultoria científica dos EUA.
 
O relatório é considerado a avaliação mais abrangente do impacto das sementes geneticamente modificadas sobre os agricultores norteamericanos, que as adotaram rapidamente desde a sua introdução em 1996. O estudo foi divulgado pelo National Research Council, que é afiliado à National Academy of Sciences e presta consultoria aos Estados Unidos por meio de uma pasta do Congresso norte-americano. (...)
 
Porém, acrescentou o Dr. Ervin, professor de administração e economia ambiental na Portland State University, no Oregon, “esses benefícios não são universais para todos os agricultores”.
 
E também não são necessariamente permanentes. O relatório alerta que os fazendeiros colocaram esses benefícios em perigo ao plantar muitas sementes chamadas Roundup Ready. Essas sementes são geneticamente modificadas para serem inatingíveis pelo herbicida Roundup (glifosato), permitindo que os agricultores fumiguem o químico para matar o mato, deixando a lavoura ilesa.
 
O uso excessivo dessa atitude sedutoramente simples para o controle de pragas está começando a sair pela culatra. O uso do Roundup, ou de seu equivalente genérico, atingiu um limite em que as pragas estão se tornando rapidamente resistentes ao produto químico. Isso está tornando a tecnologia menos útil, exigindo que os agricultores comecem a usar herbicidas adicionais, alguns deles mais tóxicos do que o glifosato. (...)
 
A reportagem é de Andrew Pollack, publicada no jornal The New York Times, 13/04/2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto e está disponível na íntegra na página do Instituto Humanitas-Unisinos.
 
3. Para professor da USP, efeitos precisam ser estudados no longo prazo
 
O relatório do Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos, divulgado na terça-feira (14), que ressalta os benefícios das culturas transgênicas foi recebido com ressalvas pelo professor da USP Paulo Kageyama, para o qual não se pode “assumir” o documento americano como verdade para o Brasil.
 
“Os EUA têm regras muito frouxas no caso dos transgênicos. Eles sempre foram liberais, são pela tecnologia e fim de papo”, disse Kageyama, representante do Ministério do Meio Ambiente na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), um dos órgãos do governo federal que aprova o plantio e a venda de variedades transgênicas.
 
O relatório americano afirma que plantas geneticamente modificadas podem ajudar a proteger o ambiente e a população de uma superexposição a pesticidas. O motivo alegado é a redução no uso de agrotóxicos ocorrido nos EUA com a introdução das variedades transgênicas.
 
Apesar disso, o uso dos transgênicos é criticado por ambientalistas, que temem o impacto ecológico e sobre a saúde humana das variedades modificadas.
 
Para Kageyama, os efeitos dos Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) precisam ser estudados no longo prazo. “Hoje, a tecnologia é criada e aprovada muito rapidamente. Mas os problemas aparecem quando há grande escala.”
 
Kageyama afirma ainda que, no País, os transgênicos acabam atrapalhando os pequenos produtores e produtores de orgânicos, que têm suas plantações contaminadas pelos OGMs.
 
No Brasil, produtos que contêm uma proporção de transgênicos superior a 1% devem apresentar um selo especial, para informação do consumidor. (...)
 
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/04/2010.
 
4. Agrotóxicos: o consumidor tem direito de saber o que come
 
Debate promovido pelo Idec e Anvisa traçou cenário sobre o uso de agrotóxicos no país, a fiscalização e o acesso à informação pelo cidadão
 
Além de fiscalização eficiente, é necessário garantir ao consumidor o acesso à informações claras sobre a qualidade e a segurança da comida que chega à sua mesa. Essa é a principal conclusão da mesa redonda "Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em alimentos: desafios e perspectivas", realizada ontem (13/4), em São Paulo. (...)
 
Um cenário preocupante foi retratado por Reinaldo Skalisz, representante do Fórum Nacional de Entidades Civis de Defesa do Consumidor (FNECDC). Funcionário aposentado da Secretaria da Agricultura do Paraná e com larga experiência na fiscalização do uso de agrotóxicos, Skalisz apontou que o número de ingredientes ativos aprovados para aplicação é muito mais numeroso do que número dos que são de fato monitorados. Isso sem falar na série de agrotóxicos que já foram banidos e continuam sendo detectados.
 
"O consumidor está vulnerável. Há muita informação que afeta diretamente sua saúde que não chega ao seu conhecimento", disse. "Cabe ao consumidor exercer sua cidadania e cobrar pelos seus direitos e cabe ao governo criar meios que façam essa informação chegar de forma mais eficiente para o consumidor", acrescentou. (...)
 
Para o Idec, é fundamental ampliar a comunicação sobre os resultados dos monitoramentos realizados pelos órgãos oficiais, de forma clara a todos os consumidores, pois só assim ele poderá exercer maior controle sobre as práticas dos produtores agrícolas e fabricantes, fazendo valer seus direitos de acesso a alimentos seguros e preservando a saúde e o meio ambiente.

Fonte: Idec, 14/04/2010.
 
5. Mais agrotóxicos irregulares
 
Fiscalização em 17 fábricas de São Paulo entre os dias 6 e 9 de abril resultou na apreensão de 30 mil quilos de agrotóxicos com irregularidades. O Ministério da Agricultura não divulgou os nomes das empresas nem dos produtos adulterados. De acordo com Luís Rangel, coordenador de Agrotóxicos e Afins do ministério, os produtos apreendidos somente serão liberados quando corrigidas as irregularidades. As informações são da Assessoria de Imprensa do Ministério da Agricultura, 12/4/2010.
 
 
A alternativa agroecológica
 
Paraíba: Agricultores rejeitam agrotóxicos contra mosca negra dos citros
 
A imprensa paraibana vem dando grande destaque à disseminação da mosca negra dos citros em 15 municípios do estado. Como resposta ao problema, o governo estadual, com apoio do Ministério da Agricultura, vem estimulando a aplicação do inseticida Provado SC200 (produto comercial da Bayer com principio ativo Imidacloprid, da família dos neonicotinoides – classe III, perigoso ao meio ambiente). Mais de R$ 250 mil já teriam sido destinados pelo governo para a compra do produto. O veneno é tido como principal responsável pela síndrome do colapso das abelhas, que vem dizimando colmeias em vários países. Por esse motivo já foi proibido na Itália, França e Alemanha.
 
O inseto Aleurocanthus woglumi ataca sobretudo as plantações de laranja, mas também afeta outros frutos, como romã, caju, graviola, amora, maracujá, gengibre, goiaba, mamão e sapoti. Já há um produto à base de Nim, permitido em agricultura orgânica, registrado para aplicação em citros. Diante da situação, bastaria uma extensão do registro para incluir a mosca negra na lista dos alvos biológicos controlados pelo produto. Experiência já há na região comprovando a viabilidade e vantagens dessa forma de controle.
 
Representantes da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba) e do Pólo das Organizações da Agricultura Familiar da Borborema convocaram uma reunião com o secretário de agricultura para apresentar os resultados obtidos na região com o controle alternativo da mosca negra.
 
Na reunião, o presidente da Fetag, Liberalino Ferreira de Lucena, cobrou do Governo do Estado o respeito à opção dos agricultores de não aplicar venenos em suas lavouras e, assim, manter cultivos de base agroecológica. Segundo ele, em vez de agrotóxicos, estão sendo utilizados produtos orgânicos para o combate da praga.
 
“Já temos casos exitosos da aplicação de inseticidas naturais, como o nim ou amargosa. É preciso, portanto, deixar a cargo dos agricultores a escolha pela opção que consideram mais adequada”, destacou Lucena.
 
Um dos pontos altos da reunião foi o momento em que dois agricultores deram seus depoimentos. O primeiro, Fernando Paulino da Silva, trouxe folhas de laranjeiras, algumas danificadas pela mosca negra e outras tratadas com produtos naturais fabricados a partir de conhecimentos locais. Já o segundo agricultor, conhecido como Robinho, expôs a situação dramática que viveu no passado, quando aplicou agrotóxicos indiscriminadamente, o que deixou marcas em seu corpo e arrependimento por ter agredido o meio ambiente.
 
Durante o encontro também foi apresentado um relatório expondo as boas práticas agrícolas que vêm sendo monitoradas, testadas e aprovadas pela equipe técnica da AS-PTA junto ao Prof. Jacinto Luna, da UFPB - Campus Areia. As práticas consistem em aplicar nas plantas afetadas óleo de castanha-de-caju, detergentes neutros e óleo de nim, que, por ser um produto de origem vegetal, biodegradável, não contamina o meio ambiente, sendo inclusive indicado amplamente na agricultura orgânica.
 
Segundo João Macedo, engenheiro agrônomo e assessor técnico da AS-PTA, “o governo reconhece que o controle biológico é ideal, mas argumenta que é um processo lento e que para ter eficácia é necessário inicialmente diminuir a população de insetos por meio da aplicação de produtos químicos. Ora, isso é muito contraditório. Como defender a opção pelo controle biológico se utilizamos agrotóxicos? Há também o fato de que, após certo tempo, os insetos acabam criando resistência e, ao aplicarmos só nos citros, nada impede que a praga busque outras plantas hospedeiras. Enfim, o controle químico já é comprovadamente um método ineficaz, além de bastante caro e agressivo ao meio ambiente. É bom lembrar ainda que tanto a UFPB - Areia, quanto a Embrapa Algodão possuem laboratórios em condições de produzir inimigos naturais da praga em curto prazo e em larga escala. Além disso, com a chegada das chuvas, haverá uma redução natural da população de insetos, mais um motivo para evitar medidas drásticas”.
 
Na região da Borborema, as famílias tradicionalmente produzem frutas em sistemas altamente diversificados, onde a própria natureza se encarrega de equilibrar as populações de insetos e pragas. A grande maioria das famílias da região nunca fez uso de agrotóxicos. Esse contexto anuncia um enorme desastre ambiental e social decorrente das formas com que o governo vem tratando a questão.
 
Considerando a importância do cultivo das plantas cítricas para a economia e alimentação permanente da população paraibana, o grande alarde da imprensa e as soluções imediatistas incentivadas pelos órgãos governamentais só aumentam o pânico dos consumidores e agravam a situação dos agricultores, que vêm sofrendo com barreiras fitossanitárias de alguns estados, como Pernambuco, proibindo a entrada das frutas cultivadas na Paraíba.
 
 
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Campanha Brasil Ecológico, Livre de Transgênicos e Agrotóxicos
 
Este Boletim é produzido pela AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e é de livre reprodução e circulação, desde que citada a AS-PTA como fonte.
 
Para os números anteriores do Boletim, clique em: http://www.aspta.org.br/por-um-brasil-livre-de-transgenicos/boletim/
 
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