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Avançam as pesquisas com árvores transgênicas

Depois de muitos anos de letargia, o previsível auge dos biocombustíveis contribuiu para reavivar as tentativas de obter e comercializar florestas transgênicas. Trata-se, sobretudo, de mudar a composição da madeira, com a finalidade de resulte mais fácil e barato utilizar as árvores como fonte de energia ou de pasta de papel, mas não se exclui tentativas de conseguir árvores que cresçam mais rapidamente ou que sejam resistentes às pragas. Um dos principais objetivos é reduzir a quantidade de lignina, um composto químico que dificulta a conversão da celulosa da árvore em biocombustíveis, como o etanol, ou em papel. A reportagem é do jornal El País, 06-02-2008, e foi traduzida pelo Cepat.

Na Europa foram realizados nos últimos anos vários experimentos de campo com diferentes espécies. Na Bélgica foi comprovado em chopos que quando se reduz a lignina, parte da biomassa é transladada à celulosa, razão pela qual o que o manejo da madeira fica mais fácil e o rendimento é maior. As experiências também envolveram o pinus, eucalipto e bétula. Na Espanha trabalha-se em plantas forrageiras, como a alfafa e o milho, para torná-las mais digestíveis, explica Pere Puigdomenech, especialista em genética vegetal.

O único grande experimento de campo com árvores que produzem menos lignina, realizado ao longo de quatro anos no Reino Unido e na França, mostra que parecem crescer normalmente e que não são vulneráveis aos insetos, de acordo com um artigo publicado pelos pesquisadores na Nature Biotechnology em 2002.

Nos Estados Unidos, o setor teve recentemente grande injeção de fundos do Ministério de Energia. Vincent L. Chiang, da Universidade da Carolina do Norte em Raleigh, desenvolveu árvores transgênicas com até a metade de lignina que as naturais. Os ecologistas são da opinião de que este trabalho pode ser arriscado, porque a lignina proporciona às árvores rigidez estrutural e resistência às pragas, e alguns cientistas concordam. “Se pudessem sobreviver, a natureza teria selecionado árvores com menos lignina”, afirma Shawn Mansfield, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá.

O etanol é fabricado principalmente com a fécula das maçarocas de milho. Para aumentar a oferta de etanol, os cientistas pretendem usar celulose, um componente das paredes celulares das plantas. Mas a celulose está coberta de lignina, o que dificulta a chegada das enzimas à celulose para decompô-la em açúcares simples que podem ser convertidos em etanol.

Os cientistas já conhecem o processo para a criação de lignina e podem obter árvores que produzem deste composto mediante o bloqueio de um dos passos. Uma forma de fazê-lo é silenciar o gene que governa a produção de uma enzima necessária para a formação de lignina.

Nos Estados Unidos só se conhece uma empresa que está estudando seriamente a engenharia genética das árvores florestais. A empresa ArborGen é pequena mas tem grandes avalistas, ao ser propriedade conjunta de três empresas de produtos florestais: International Paper, MeadWestvaco e a neozelandesa Rubicon. A ArborGen está desenvolvendo um eucalipto que produz pouca lignina que espera vender na América do Sul. “Nos próximos cinco ou dez anos, veremos árvores transgênicas no mercado”, garante Maud Hinchee, chefe de tecnologia da ArborGen.

A única aprovação conhecida de árvore florestal geneticamente modificada procede da China, onde se está plantando grandes quantidades de álamos resistentes aos insetos.

Apesar desta reanimação da pesquisa e desenvolvimento no setor, não está claro que a modificação genética seja a via que tenha sucesso para melhorar as árvores florestais, na opinião de Puigdomenech: “As árvores são organismos muito naturais e tocar uma via metabólica implica tocar muitas coisas, além de ser bem mais caro. Há outras possibilidades, como obter mutantes da espécie natural”. E há outra dificuldade. O pólen das árvores é muito ligeiro, viaja a grande distância, razão pela qual as conseqüências ambientais são muito difíceis de serem previstas e será complicado cumprir a regulação que se estabelecer.