Forum Permanente em Defesa da Vida

É sobre São Paulo, mais creio que serve para Salvador, ou não?

Nelson
Delicadeza - por Maria Rita Kehl

Delicadeza

15 de maio de 2010 | 0h 00
MARIA RITA KEHL - O Estado de S.Paulo
Se eu fosse Deus e se eu existisse, executaria em São Paulo uma prosaica
providência administrativa. Tombaria a cidade inteira pelos próximos dez
anos: como está, fica. Não se derruba mais nada, não se constrói mais
nada. Tratem de melhorar a cidade que já existe: monstruosa, desigual,
mal planejada e mal cuidada. Se é para movimentar dinheiro, invistam-se
nos espaços públicos: ruas, praças, jardins, calçadas, iluminação,
centros de lazer, prevenção contra enchentes - tudo o que faz, de um
amontoado de moradias, algo parecido com a magnífica invenção humana
chamada cidade. Investir em urbanidade também dá retorno financeiro.
Vista assim do alto, do ponto de vista celeste, São Paulo mais parece
uma cidade bombardeada. Imensas crateras em todos os bairros,
quarteirões de casas derrubadas, populações pobres jogadas de lá pra cá
à procura de lugar para criar novos campos de refugiados de onde serão
expulsas pouco tempo depois. Inundações, trânsito bloqueado, gente
desesperada presa dentro dos carros parados, gente enlouquecendo pela
dificuldade de tocar o dia a dia. Gente que sente no corpo e na alma os
efeitos de viver sob uma cúpula negra de poluição que só se vê de cima.
Parece uma guerra, mas é só o capitalismo: bombando, enriquecendo alguns
e empobrecendo o resto. Enquanto a cidade se torna infernal, se oferece
aos que podem pagar o lenitivo de viver numa torre, bem acima do chão,
de onde se finge escapar da realidade urbana. O uso novo-rico da palavra
torre substituiu as obsoletas "edifício" e "prédio", além da simpática e
infantil "arranha-céu". Nas histórias de fadas, a torre era o lugar onde
se encarceravam as princesas. Privilégio em São Paulo é viver encerrado
numa torre.
Mas como parar todos os negócios imobiliários da cidade? E a economia? E
a geração de empregos? Digamos que, se eu fosse Deus, daria um jeito
nisso. Se uma prefeitura rica como a nossa, em vez de se tornar cliente
de um setor poderoso, investisse os impostos que recebe em outras
atividades, em pouco tempo a cidade recuperaria sua pujança. Digamos que
seja possível planejar um pouco a economia municipal. Só assim
deixaríamos de ser reféns de quem já detém poder econômico. Dez anos são
menos que uma fração de segundo pra quem vê o tempo do ponto de vista da
eternidade. Mas quem sabe, tempo suficiente para que a cidade pudesse
eleger uma nova prefeitura e uma câmara dos vereadores livres de
compromissos com o poderoso Secovi, maior sindicato de comércio
imobiliário da América Latina.
Mas - em nome de que Deus faria uma coisa dessas? Em nome de que
impediria a cidade de, digamos - "crescer"? Não, Deus não precisaria ser
socialista. Nem urbanista. Bastaria agir em nome de um valor que está
presente em todas as perspectivas sagradas, religiosas ou simplesmente
humanistas: em nome da delicadeza. Bastaria considerar que as cidades
não existem para impressionar e oprimir as pessoas, mas para ampliar a
esfera da liberdade, das possibilidades e daquilo que se costuma chamar
de urbanidade.
Nesse ponto convido o leitor a trocar a vista aérea de São Paulo pelo
ponto de vista pedestre. Basta descer um pouco do carro e passear a esmo
pelas ruas. Se achar a proposta muito mixuruca, finja que é Baudelaire
flanando por Paris no século 19, tentando captar o que sobrou da antiga
cidade depois da monumental reforma executada por Haussmann a mando de
Napoleão III. Ou finja que você é o João do Rio, cronista da capital
brasileira reformada por Pereira Passos. A diferença, claro, é que essas
duas enormes destruições/reconstruções urbanas foram planejadas visando
a modernizar o espaço público, enquanto hoje a construção civil compra o
poder público e faz literalmente o que quer em nome do interesse das
pessoas, isto é, do mercado. Parece que o mercado é igual à soma das
vontades das pessoas. Não é. O que chamamos mercado é um dispositivo
formado por poucos, porém grandes interesses, que se impõe às pessoas de
modo a determinar o que elas devem querer.
O que será de uma cidade que destrói todas as suas reservas de
delicadeza, de graça, de modéstia? Caminhe um pouco pelas ruas de seu
bairro em busca dos cantinhos que ainda não foram devastados por alguma
obra grandiosa e brega. O que será de uma cidade sem varandas? Sem
janelas dando para a rua - e o gato que espia pelo vidro de uma delas? O
que será de nosso convívio diário numa cidade sem o pequeno comércio da
rua, responsável pelo território coletivo onde as pessoas aos poucos se
conhecem, se cumprimentam, conversam? Uma cidade sem zonas de
familiaridade? O que será de uma cidade sem as vilas com casas antigas
onde o pedestre entra sem passar por uma guarita e encontra um
micro-oásis de sombra e silêncio? Sem a minúscula pracinha que sobrou
numa esquina onde se esqueceram de construir outra coisa? Procure os
lugares em que ainda seja possível o encontro entre o público e o
privado, o íntimo e o estranho, o desafiante e o acolhedor. O que será
de uma cidade que é pura arrogância, exibicionismo e eficiência? O que
será de nós, moradores de uma cidade que despreza a vida urbana?

 

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"Não existe pensamento sem utopia. Ou então, se nos contentarmos em constatar, em ratificar o que temos sob os olhos, não iremos longe, permaneceremos com os olhos fixados no real ... seremos realistas mas não pensaremos! Não existe pensamento que não explore uma possibilidade" (Henri Lefebvre).