Forum Permanente em Defesa da Vida

Número 152 - Março 2010

O TEMA CENTRAL DESTE BOLETIM: MULHERES FAZENDO CAMINHO AO ANDAR

Honrando mais uma vez o Dia da Mulher, milhares de mulheres
camponesas, trabalhadoras, desempregadas fazem passeatas em todo o
Brasil. A passeata é para se manifestarem contra a criminalização
dos movimentos sociais, contra a violência que recai sobre as
mulheres, contra o agronegócio e as monoculturas de eucalipto e cana.
A passeata também é em defesa da soberania alimentar e energética,
e do investimento público na agricultura camponesa.

Mas não é apenas no Brasil. Também nos cinco continentes a
Passeata Mundial das Mulheres convida a marchar “na luta contra a
privatização dos recursos naturais e dos serviços públicos.
Fazemos a passeata pela soberania alimentar e energética, e contra a
destruição e o controle de nossos territórios e contra as falsas
soluções diante da mudança climática”.

No mundo todo há mulheres que ganham consciência, se organizam,
reclamam, se empodeiram.

Este boletim é delas e para elas.

NOSSA OPINIÃO

Mulheres empodeiradas: lutas sociais e consciência de gênero <#1>

EXAMINANDO A QUESTÃO DO GÊNERO E O AMBIENTE

Conexão de correntes ambientais e gênero <#2>

MULHERES: IMPACTADAS E EMPODEIRADAS

A soberania alimentar nas mãos das mulheres do ecossistema de
manguezal <#3>

Nigéria: as mulheres sofrem a maldição do petróleo <#4>

Papua-Nova Guiné: associação e fortalecimento das mulheres em
plantações de dendezeiros <#5>

Brasil: mulheres atingidas por barragens - mudanças nos modos de
vida <#6>

Legado nada promissor: as mulheres começam a se organizar contra a
mineração de ouro na Tailândia <#7>

As mulheres e a mudança climática, as mais afetadas e as menos
ouvidas <#8>

As invisíveis mulheres e homens que resistem contra a destruição
de seu território no Norte do Grande Chaco <#9>

As mulheres Garo de Bangladesh: a vida de um povo da floresta sem
floresta <#10>

Brasil: por quem e por que lutam as mulheres, também no Dia 8 de
Março <#11>

*NOSSA OPINIÃO*

- Mulheres empodeiradas: lutas sociais e consciência de gênero

Ninguém duvida que estamos imersos e imersas em um longo e por
vezes resistido processo de tomada de consciência das relações
sociais de gênero que, em geral, têm colocado historicamente a
mulher em situação de desigualdade e subordinação.

A luta da mulher, uma luta libertária desde sua condição de setor
excluído, é, essencialmente, uma reclamação social de mudança nas
relações e estruturas sociais que, na maioria das sociedades,
através dos sistemas políticos, legais, culturais, religiosos e
familiares têm restrito o papel da mulher ao âmbito privado e
familiar. É, em definitivo, uma reclamação de justiça social.

No mundo ocidental é possível localizar antigas raízes na figura
da francesa Olympe de Gouges, dramaturga e ativista política, que em
1791 foi autora da “Declaração dos Direitos da Mulher e a
Cidadania”, em evidente contrapartida aos “Direitos do Homem e o
Cidadão”. O artigo 10 de tal declaração estabelece que “a
mulher tem o direito de subir ao cadafalso; deve ter também da mesma
forma o direito de subir à Tribuna”, expressando assim que se a
mulher tem o direito a ser executada, também deveria ter o direito a
falar.

No século XX, o assunto de gênero adquire maior visibilidade ao
ser tomado por organismos e processos internacionais, sendo
instrumental a Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial das
Mulheres de Beijing, em 1995, que advoga pela participação plena da
mulher no exercício do poder na esfera pública.

A partir de então e progressivamente, documentos, conferências e
processos internacionais foram reconhecendo formalmente o direito da
mulher a participar de forma igualitária com o homem nos âmbitos de
poder e tomada de decisões. No entanto, tal reconhecimento formal
não se compassa com os dados estatísticos, que revelam uma sub-
representação da mulher em relação ao homem nos espaços
decisórios.

Em outros âmbitos, e especialmente nos países do sul, as lutas
sociais diante da imposição de modelos produtivos que implicam a
destruição de bens comunais como a água, a terra, o território, a
soberania e até a própria cultura, têm encontrado as mulheres ao
par dos homens, e por vezes na vanguarda. Essas mulheres que começam
a travar batalhas geralmente não para elas mesmas mas em função dos
filhos, a família, a comunidade, crescem no caminho, adquirem
protagonismo, empodeiram-se e acabam transitando a mudança individual
e a ação coletiva própria, que se torna ação política pois tenta
incidir nas decisões públicas.

São avanços construídos sobre a dor, a coragem e a esperança de
muitas vidas anônimas de mulheres como as do manguezal do Equador em
defesa de sua soberania alimentar diante do avanço destrutivo das
granjas camaroneiras; as camponesas do MST do Brasil defendendo a
produção camponesa deslocada pelas plantações industriais de
eucaliptos; as mulheres de Idheze, na Nigéria, que fecharam as
instalações petroleiras da empresa Nigéria Agip Oil Company,
cansadas de que nem sequer indenizaram a comunidade pela poluição
sofrida durante anos; as mulheres do histórico Movimento Chipko, no
Himalaia da Índia, abraçadas às árvores de suas florestas para
defendê-las dos madeireiros. Mulheres que resistem o avanço das
monoculturas de árvores, mulheres contra a mineração, contra as
barragens, contra o petróleo. Contra a destruição, porque elas
lutam pela vida.

E essas consciências engendram outras consciências, que são
degraus para sair seja da invisibilidade seja da opressão descarada.
A mulher já não quer o homem fale por ela. Um coletivo de mulheres
Mapuche (1) denuncia, “A invisibilidade, negação e exclusão do
Estado chileno a respeito das mulheres mapuche, que não conta com
programas que envolvam a situação nem nosso modo de viver”. Mas,
por sua vez, reage e acusa que isso, “também é transladado a
grande parte do mesmo Movimento Mapuche”. Fala da
“invisibilidade” das mulheres mapuche apesar de terem estado “ao
par com os homens, gestando o movimento, lutando pela consecução dos
direitos como integrantes da sociedade e acima de tudo como
mulheres”.

As Mapuche são claras e enérgicas em suas reclamações: “A
reivindicação pelos direitos, a justiça, a equidade e o respeito
que se exige começa em casa. Fala-se de reconstruir a ‘pátria’
Mapuche e, quem diz que deve ser pátria, que significa o que é do
pater/ pai? O seio de nossa existência é a Mapu Ñuke, a mãe terra,
nossa MATRIA”. (1)

Da mesma forma que suas irmãs Mapuche, mulheres do mundo todo
incorporam suas reivindicações próprias às lutas coletivas e se
pronunciam cada vez com mais força, tornando-se donas de seu lugar no
mundo, de suas vidas.

Raquel Núñez

World Rainforest Movement

(1) “La matria mapuche”,
http://www.mapuche-nation.org/espanol/html/articulos/art-77.htm

inìcio <#0>

EXAMINANDO A QUESTÃO DO GÊNERO E O AMBIENTE

- Conexão de correntes ambientais e gênero

As mulheres frequentemente têm uma função crucial em conflitos
ambientais sobre a extração de petróleo, mineração e atividades
madeireiras, criação de camarões e plantação de árvores. Essas
corajosas mulheres não duvidam em desafiar ao poder político, os
tiranos locais e a violência armada para proteger os recursos
naturais circundantes, dos que elas e suas famílias dependem.
Portanto, elas protegem sua cultura, forma de vida, lugares sagrados,
meios de sustentação, etc. Apesar de que esse fenômeno é muito
espalhado, continua sendo pouco estudado, bem como o empoderamento que
as mulheres podem atingir através dessas lutas. Este artigo fornece
um panorama das diferentes correntes ambientais existentes e sua
conexão com suas contrapartes de gênero, para salientar diferentes
formas políticas de considerar a função das mulheres nas lutas
ambientais.

As correntes ambientais podem apoiar diferentes valores, desde os
mais conservadores (por exemplo, conservação de um parque nacional
à custa do bem-estar das populações indígenas) até os mais
progressivos, onde as preocupações ecológicas e a eqüidade social
estão intrinsecamente relacionadas, como é o caso nas mobilizações
socioambientais relacionadas com a extração (mineração, atividade
madeireira, petróleo) ou processos de produção (criação de
camarões, plantações). Para entender essas posições diferentes na
arena política, Martínez-Alier (2002) tem proposto organizá-las sob
três amplas correntes de ambientalismo -conforme detalhado infra.
Além disso, exploramos a forma na que essas correntes articulam com o
gênero.

Em primeiro lugar, Martínez-Alier identifica o "culto da natureza
selvagem" que promove a conservação de uma natureza prístina, livre
de qualquer intervenção humana. Seu apoio acadêmico é
frequentemente a biologia da conservação. Comprovadamente, sua
contraparte feminista é o essencialismo, onde as mulheres e os homens
são considerados como psicologicamente diferentes em decorrência de
suas naturezas biológicas, e suas funções atribuídas não são
portanto questionadas. A emancipação das mulheres, ou, melhor dito,
sua obtenção, é atingida através da valorização das tarefas,
características e valores tradicionais associados com seu gênero. Em
ambos os casos, a idéia é alocar espaço e/ou corpos a diferentes
atividades em forma dualista e complementar, como, por exemplo, a
indústria e a conservação -sem questionar o crescimento econômico-
ou mulheres e homens -sem questionar as relações de gênero. Os
acadêmicos "essencialistas" têm aplicado o enfoque prístino mítico
às relações das mulheres com a natureza, alegando que as mulheres
estão, devido à sua biologia, mais perto da natureza do que os
homens. Isso deu origem a um ramo inicial de ecofeminismo (Diamond e
Orenstein, 1990; Plant, 1989), recusado por acadêmicos posteriores
que alegavam um ecofeminismo materialista (Mellor, 1997).

Em segundo lugar, a corrente ambientalista da "eco-eficiência"
procura fazer com que o crescimento econômico seja compatível com a
conservação ambiental, através da mudança técnica e através de
políticas econômicas que "internalizam" as "externalidades
negativas" do mercado. Hoje, é a corrente dominadora e seu principal
apoio acadêmico pode geralmente ser achado na economia ambiental.
Aparece em noções como a "modernização ecológica", "tecnologias
limpas", "contabilidade verde". Está dominada pelo otimismo
tecnológico, e o crescimento econômico é percebido como uma
sustentabilidade melhoradora, conforme promove o Banco Mundial. Cada
vez mais essa corrente também tende a integrar uma dimensão de
gênero em suas análises, mas de forma similar ao enfoque do custo
ambiental: como uma variável a ser internalizada. Sua contraparte
dentro de estudos de gênero manifesta-se a si mesma através de
mudanças políticas e institucionais que permitem às mulheres ter
acesso a oportunidades e profissões tradicionalmente masculinas pela
discriminação positiva -como um tipo de incorporação de gênero.
Os assuntos de gênero e empoderamento são geralmente tratados da
perspectiva das mulheres que alcançam os homens através de sua
inserção na economia de mercado (trabalho remunerado, acesso à
propriedade e o crédito, educação). É frequentemente o modelo
masculino ocidental que determina as normas a serem atingidas,
cumprindo assim com a ideologia dominadora do desenvolvimento que
exige que sociedades não ocidentais alcancem os países
industrializados através de sua rápida inserção nos mercados
mundiais.

Em terceiro lugar, temos a corrente que Martínez-Alier tem
denominado "ambientalismo dos pobres" -ou o movimento de "justiça
ambiental" ou "ecologia da liberação" (Peet e Watts, 1996). Essa
corrente argumenta contra os impactos negativos do crescimento
econômico e, mais em geral, contra a distribuição desigual de
benefícios econômicos e impactos socioambientais da
industrialização. Manifesta-se através de conflitos socioambientais
contra a extração industrial de recursos naturais (atividades
petroleiras, de mineração e madeireiras) ou produção industrial de
biorecursos (plantações de árvores, criação de camarões). Esses
conflitos denunciam e contestam o acesso a recursos naturais e
serviços e as cargas da poluição ou outros impactos ambientais que
surgem em decorrência de direitos à propriedade desiguais e
desigualdades de poder e renda. Os protagonistas desses conflitos
são, de um lado, o estado e/ou companhias privadas e, de outro,
populações empobrecidas, rurais ou urbanas, integradas por
camponeses, povos indígenas ou assalariados, exigindo justiça
social. Essa corrente às vezes permanece invisível porque contesta o
discurso dominante sobre a economia, mas também porque a categoria
dos "pobres" é de alguma forma vaga. A categoria compreende (1)
populações urbanas desprovidas, mais ou menos integradas no sistema
de mercado, mas incapazes de obter uma renda decente nele; (2) os
povos indígenas não integrados no mercado e considerados como
"pobres", apesar de que muitos deles não são pobres, já que se
adaptam à riqueza natural circundante sem miná-la; e (3) as
populações rurais que se têm empobrecido pelo sistema de mercado e
que lutam para proteger os ecossistemas dos quais dependem.
Logicamente, nem todas as pessoas pobres são ambientalistas, mas em
muitos conflitos ambientais, os pobres estão do lado da conservação
dos recursos naturais, por causa de suas próprias necessidades de
subsistência, ou para proteger sua saúde. Sua língua não é uma
língua unificada; às vezes não é a linguagem da ecologia
ocidental, nem é a da economia standard: as populações locais podem
usar a linguagem de defesa dos direitos humanos, as urgências dos
meios de vida, a necessidade de segurança alimentar, a defesa da
identidade cultural e os direitos territoriais, o respeito pelo
venerável. No entanto, a linguagem do ambientalismo ocidental está
sendo usada cada vez mais por razões estratégicas (comunicação,
visibilidade, proteção), porque se ajusta bem a suas demandas e
porque há uma globalização das preocupações ambientais. O que é
bem interessante, os movimentos socioambientais que conseguiram obter
visibilidade internacional são os que têm combinado uma identidade
cultural específica (incluindo direitos territoriais, meios de vida,
venerabilidade), com elementos de ambientalismo ocidental
(conservação do ecossistema, biodiversidade). Esse é o caso, por
exemplo, de exemplos bem conhecidos como o movimento dos seringueiros
no Brasil (associado com a figura de Chico Mendes), o movimento Chipko
na Índia, o Movimento Cinturão Verde no Quênia (associado com a
figura de Wangari Maathai), mas também é o caso de muitos outros
movimentos, como por exemplo, o movimento de Fundecol no Equador, que
luta contra a criação de camarões, etc.

Guha (2000) resume as diferenças entre o "culto da natureza
selvagem" e o "ambientalismo dos pobres" conforme segue: "Enquanto os
ecologistas do norte têm estando muito atentos aos direitos dos
animais e espécies de plantas vitimados ou em perigo de extinção,
os ecologistas do Sul têm estado geralmente mais atentos aos direitos
dos membros menos afortunados de sua própria espécie". O apoio
acadêmico para essa corrente seria a antropologia ecológica, a
agroecologia, a ecologia política e às vezes a economia ecológica.

A contraparte feminista dessa corrente poderia ser chamada de
"ecofeminismo dos pobres" ou "ecologia da liberação feminina". Em
muitos conflitos ambientais as mulheres têm uma função essencial
-como é o caso dos movimentos mencionados supra. A divisão de
gênero do trabalho, poder e direitos de acesso aos recursos naturais,
que implicam responsabilidades, conhecimento e esferas de ação
específicas fazem com que as mulheres e os homens percebam de forma
diferente a exploração industrial. Mobilizando-se para preservar os
ecossistemas, as populações femininas empobrecidas assumem ações
em novas esferas, começam novas atividades e questionam identidades e
relações de gênero dentro de sua própria sociedade. Além disso,
em alguns casos, tentam conectar-se com o sistema de mercado através
de suas próprias redes organizacionais. Esse empoderamento avança
através de um processo ascendente. Os campos acadêmicos que apóiam
esses movimentos e analisam as formas em que as relações de gênero
estruturam o manejo, as políticas e as mudanças ambientais -e são
estruturadas por elas- são ambientalismo feminista (Agarwal, 1992),
ecologia política feminista (Rocheleau et al., 1996), ecofeminismo
socialista ou materialista (Mellor, 1997; Merchant, 1992), economia
política ecofeminista (Mellor, 2006) e economia ecológica feminista
(Perkins e Kuiper, 2005; Perkins, 2007; O'Hara, 2009). Enquanto os
dois primeiros campos desenvolvem um enfoque de estudo de caso, os
dois seguintes estão mais interessados na filosofia da teoria
econômica. O último, por sua vez, tende a integrar dois enfoques que
incorporam elementos de economia ecológica, como por exemplo, tempo,
economias locais, valoração e sustentabilidade.

Frequentemente, a função das mulheres nos conflitos ambientais
não é bem conhecida. Às vezes, as mulheres instigam a luta, às
vezes lideram e organizam a luta, às vezes interagem com os homens
nos conflitos, às vezes confrontam os homens através dos conflitos e
às vezes os homens têm funções de liderança em lutas enquanto as
mulheres constituem a espinha dorsal do movimento. Isso tem diferentes
impactos em termos de empoderamento. Agarwal (2001) propôs uma tabela
para analisar as diferentes funções que podem ser assumidas pelas
mulheres:

Tabela 1. Tipologia da participação

Forma/Nível de participação

Aspectos característicos

Participação nominal

Participação no grupo

Participação passiva

Informação das decisões ex post facto; ou assistência às
reuniões, escutando durante a tomada de decisões, sem falar

Participação consultiva

Solicitação de uma opinião em assuntos específicos, sem garantia
de influenciar as decisões

Participação específica-ativa

Solicitação (ou oferecimento como voluntário) para assumir
tarefas específicas

Participação ativa

Expressão de opiniões, solicitadas ou não, ou adoção de
iniciativas de outros tipos

Participação interativa (empoderadora)

Voz e influência nas decisões do grupo

A função das mulheres nos conflitos ambientais tem o potencial de
reparar o desequilíbrio de custos e benefícios do "desenvolvimento"
liderado pelas empresas, bem como de impugnar a dominação masculina
local. Quando as mulheres participam ativamente nas lutas -seja
liderando, organizando ou participando ativamente nas decisões-
frequentemente redefinem sua posição social dentro de sua própria
cultura, enquanto ao mesmo tempo desafiam à economia global.

Por Sandra Veuthey, e-mail: sandra_veuthey@hotmail.com
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Referências

Agarwal, B., 1992. "The gender and environment debate: lessons from
India". Feminist Studies 18: 119–158.

Agarwal, B. 2001. "Participation Exclusion, Community Forestry, and
Gender: An Analysis for South Asia and a Conceptual Framework". World
Development 29(10): 1623-1648.

Diamond, I., Orenstein, G.F. (Eds.), 1990. Reweaving the World.
Sierra Club Books, San Francisco.

Guha, R., 2000. Environmentalism: A Global History. Longman, New
York.

Martínez-Alier, J., 2002. The Environmentalism of the Poor: A Study
of Ecological Conflicts and Valuation. Edward Elgar, Cheltenham.

Mellor, M., 1997. Feminism and Ecology. University Press, New York.

Mellor, M., 2006. "Ecofeminist political economy". International
Journal of Green Economy 1: 139–150.

O'Hara, S., 2009. Feminist ecological economics: theory and
practice. In: Salleh, A. (Ed.), Eco-Sufficiency and Global Justice.
Pluto Press, New York, pp. 152–175.

Peet, R., Watts, M., 1996. Liberation Ecologies. Routledge, Londres.

Perkins, E., Kuiper, E., 2005. "Exploration: feminist ecological
economics". Feminist Economics 11: 107–150.

Perkins, E., 2007. "Feminist ecological economics and
sustainability". Journal of Bioeconomy 9: 227–244.

Plant, J., 1989. Healing the Wounds: The Promise of Ecofeminism.
Green Print, Londres.

Rocheleau, D., Thomas-Slayter, B., Wangari, E., 1996. Feminist
Political Ecology: Global Issues and Local Experiences. Routledge, New
York.

inìcio <#0>

MULHERES: IMPACTADAS E EMPODEIRADAS

- A soberania alimentar nas mãos das mulheres do ecossistema de
manguezal

Esta história está cultivada com os pensamentos, as experiências,
os sonhos, as palavras e as mãos de mulheres coletoras da concha em
Esmeraldas, província localizada no norte do Equador.

As condições de vida lá são difíceis: o acesso às comunidades
geralmente é duro; existem escolas em alguns locais, mas muitas vezes
os professores e professoras desanimam e vão embora. Para os rapazes
e as moças estudarem, os pais e mães têm que fazer grandes
esforços e enviá-los fora. A água não é boa para consumo e os
alimentos cada vez são mais escassos.

Com a chegada dos tanques camaroneiros foram embora os manguezais,
as propriedades também desapareceram. Não respeitaram nem os mortos,
pois invadiram até os cemitérios. As pessoas vão embora à procura
de melhoras para suas vidas, mas sempre voltam porque o que elas
aprenderam foi mesmo a coletar, pescar e semear alimentos.

Iniciamos este raciocínio com enorme felicidade. Já faz tempo que
estamos lutando pela defesa do ecossistema de manguezal, viemos
conversando sobre como perdemos os alimentos, o trabalho, as terras.
Até a dignidade querem tirar de nós. Estamos presas entre a
destruição das florestas primárias e os tanques camaroneiros, e
agora também entre as plantações de eucaliptos e de dendezeiros,
que avançam ameaçando nossa sobrevivência.

Sentamos para conversar cerca de noventa mulheres que todos os dias
partilhamos a jornada de coleta da concha entre as raízes dos
mangues. Juntas, nós abrimos mais uma porta para avançar nesse
caminho. Rosa, Jacinta, Delfida, Uberlisa, Fátima, Gladys, Digna,
Reverside, Anita, Nelly, Albita, Lucety, Ismelda, Nancy, Danny, Daila,
Mercedes, María, Andrea, Estefanía, Santa, Lourdes, Marianeli,
Flora, Herlinda, Tasiana, Rita, Ramona, Marieta, Carmen, Pastora e
Ninfa são mulheres com as quais levamos quase vinte anos de luta pela
defesa do ecossistema manguezal, desde a década de 80, quando os
tanques de criação e cultivo de camarão começaram a invadir os
mangues. Levamos anos lutando, “mas não estamos cansadas”.

Ao calor de um prato de comida tradicional, ao abrigo da
inteligência e a alegria brincalhona das mulheres de Esmeraldas que
coletam concha, lavramos esta história para dividir com outras
mulheres, com outras lutas, com outras esperanças... , e nesta festa
meteram a colher também Don Garci, Goyo, Cocoa, Edgar, Pirre, La
Mona, Fifo, Maximo e Alfredo.

“Como um pesadelo do qual devemos acordar”

“Certo dia acordamos e parecia um sono ruim, um pesadelo. Uns com
máquinas, outros com facões, todos destruindo as florestas de
mangue; depois o fogo acabava com tudo o que restasse. Havia grandes
cartazes de ‘Propriedade privada. Não entre’, e umas caveiras
apareciam, também, pintadas nos cartazes”. Depois eram os guardas
armados que com cães impediam a passagem das mulheres coletoras da
concha para os poucos espaços de mangue que sobreviviam. Os guardas
insultavam e perseguiam as mulheres com cães e com ameaças de morte.

Assim começou a história de destruição no cantão Muisne, no sul
da província de Esmeraldas. Isso era no final dos anos 80. Nesse
então, a aqüicultura industrial do camarão já vinha destruindo o
ecossistema manguezal e as propriedades camponesas desde a província
de El Oro.

No começo, a população acreditou nas ofertas dos empresários:
“Chegavam lá como em época de campanha política, prometiam até o
céu. Nos primeiros anos parecia que vinha a bonança. Todas e todos
saíamos para coletar larvas de camarão e para pescar camarões antes
da desova a fim de entregá-los à indústria. Mas logo tudo acabou e
aqui estamos nós, de braços cruzados sem termos nada”. As pessoas
das comunidades nunca imaginaram que em poucos anos, suas vidas
estivessem tão afetadas.

“Con la recolección de la concha, mi madre parió y crió diez
hijas. Todas estudiamos hasta el colegio y nunca faltó en la casa. No
con lujos, pero había de todo a la hora de comer: diversos tipos de
cangrejo como el guariche, el tasquero, la mapara; también animal de
monte, gallina de campo, y concha, almeja, mejillón, pescado. El
plátano antes abundaba más. En esos años había porque todos
tenían sus pequeñas finquitas. Se cultivaba en los patios de las
casas, también, y en las eras había todo lo que es hierbitas: la
chillangua, orégano grande, orégano chiquito, chirarán, cebollita,
menta e palo. Se comía la pepa e pan, la chonta, la chontilla…de
todo abundaba. Ahora una familia conchera vive bien pobremente, las
camaroneras ocupan los manglares y ocupan las tierras que eran de
nuestro abuelos. Muchas fincas se perdieron.”

“Com a coleta da concha, minha mãe pariu e criou dez filhas.
Todas nós estudamos até ensino fundamental e jamais faltou nada em
casa. Não havia luxo, mas tinha de tudo na hora de comer: diversos
tipos de caranguejo como o guariche (Ucides Occidentalis), o tasquero
(Goniopsis Pulchra, a mapara (Callinectes toxodes); também animais de
monte, galinha de campo, e concha, amêijoa, mexilhões, peixe. A
banana antes era mais abundante. Naquele tempo tinha porque todos
tinham suas pequenas propriedades. cultivavam nos quintais das casas,
também, e nos campos tinha tudo o que fosse erva: a chillangua
(coentro-bravo) orégano grande, orégano pequeno, chirarán
(manjericão), cebolinha, hortelã e palo. Comíamos a pepa e pão, a
chonta, a chotilla... tinha muito de tudo. Agora uma família que
coleta concha vive na pobreza, as camaroneiras ocupam os manguezais e
ocupam as terras que eram de nossos avós. Muitas propriedades
perderam-se.”

As mulheres coletoras da concha do cantão Muisne contam que a
paróquia Bolívar, no sul do cantão, antigamente era mais espaçosa,
tinha árvores de manga, de abacate, de laranja, de goiaba, de limão,
de mandarina, tinha coqueirais. Em cada quintal havia “chacras”;
lá tinha milho, feijões, mandioca, batata-doce, sagu, tomate,
pimentão picante, pimentão doce, batata-doce-roxa,
batata-doce-amarela e batata. Contam as mulheres que logo ao descer
para o quintal já tinham à mão todos os temperos: cebola branca,
cebola alho, cebolinha. Tinha também plantas aromáticas: tomilho,
hortelã, lima espanhola e outros. A mesma paisagem é descrita pelas
mulheres de Bunche e de Daule.

Sabemos como vai se deteriorando a vida dos companheiros pescadores,
dos carenguejeiros, dos carboneiros, porque todos nós somos um só:
nós as mulheres, os companheiros, os manguezais. Os contos, as
lendas, as danças, os cantos já quase não existem.

Antigamente tinha grandes bailes públicos em grandes salões. Ao
som do violão o povo comemorava suas festas. Nessa área o violão
era muito tocado. O povo negro chegou ao cantão Muisne com seus
tambores, seus cantos (arrullos e alabados) por volta dos anos 40, e
fundiram-se com os costumes e a cultura do povo manabita (moradores da
província de Manabí). Todos e todas foram para o manguezal, e nele
fizeram sua vida.

“Mas o que eu sempre digo é que o mais importante é nossa luta
política. Essa não deve desmaiar nunca, aliás, deve crescer. O mais
importante é recuperarmos nossa empresa natural, nosso ecossistema
manguezal. Lá ninguém nos pede documentos, ninguém nos impõe
limite de idade, somos recebidos com humildade. Fora isso, tudo é
complementar. Não permitiremos que seja legalizada a indústria
camaroneira, porque se o governo entregar as terras, eles se tornarão
mais soberbos e vão querer nos humilhar”. Assim se manifesta
Andréia, 24 anos, mãe de três filhos, com toda a força da mulher
concheira da província de Esmeraldas.

Dizem as mulheres coletoras da concha do cantão Muisne que apesar
da dor profunda ao verem a destruição do ecossistema manguezal e
mesmo que a impotência tomasse conta delas, devido à rapidez com que
era destruído o ecossistema, seu pensamento as desafiava a encontrar
algum caminho. Felizmente, estavam juntas; havia organizações
comunitárias, nesse então o cantão Muisne aprendia da história da
Organização Camponesa de Muisne Esmeraldas (OCAME)- uma forte
organização inspirada pela igreja dos pobres.

Hoje a proposta é recuperar o ecossistema manguezal e junto com ele
recuperar tudo o que se perdeu, porque até a cultura eles vão nos
tirando. Quando o manguezal é reflorestado, vem junto a concha,
aparecem também os tasqueros, os churos Pomacea maculata , as chorgas
Chione subrugosa, os caranguejos. Também vem o trabalho comunitário
porque sozinhas nós não podemos, e sempre nossas comunidades têm se
caracterizado pela solidariedade, a reciprocidade. As famílias
sobrevivem porque entre todos se sustentam- se apóiam: avôs e avós,
filhos e filhas, netos e netas, tios e tias, mãe e pai e “quem
estiver de passagem”, todos e todos contribuem, não apenas com
dinheiro, mas com trabalho, com companhia, com bons conselhos. E isso
deve ser mantido.

O que ainda está “baixinho” é o trabalho com a produção das
propriedades e dos campos, mesmo que já tenhamos começado. Mas
devemos dar uma força porque é como um corpo incompleto, como se
faltassem as mãos ou talvez o coração. Estamos fazendo feiras dos
produtos do manguezal e das propriedades; chamadas de Feiras de
Soberania Alimentar. Trata-se de comercializar o que é produzido, o
que é próprio da nossa terra, que não tem produtos químicos.
Também tiramos produtos do manguezal, mas com a mensagem de que a
concha deve ser grande, aquela de 4,5cm que já é boa para vender; a
pequena deve ser devolvida ao manguezal para completar seu
crescimento. Também com o caranguejo queremos fazer a mesma coisa,
comercializar o caranguejo grande, cuidar dos caranguejos-fêmeas,
cuidar das mães que são as reprodutoras.

“É que nós consideramos o ecossistema manguezal como nossa mãe,
é assim como todos nós aprendemos. Lá tem vida, o ecossistema
manguezal é um berçário, é uma indústria natural que Deus nos deu
como herança, para que não sejamos pobres.”

Longas jornadas de reflexão, felizes encontros entre comunidades,
reflorestamento de floresta de mangue, assim vai se construindo um
processo político de resistência, de disputa de território que
finalmente é uma disputa de poder.

Pelo coletivo de mulheres da Reserva Ecológica Cayapas Mataje, no
norte da província de Esmeraldas, e o Refúgio de Vida Silvestre do
Estuário de Manguezais Muisne Cojimies, no sul da província de
Esmeradas. Enviado por Marianeli Torres, CCONDEM, Equador, correio
eletrônico: marianeli@ccondem.org.ec <javascript:location.href=>

inìcio <#0>

- Nigéria: as mulheres sofrem a maldição do petróleo

A dotação natural de petróleo do Delta do Níger tem virado uma
mortificante maldição.

As comunidades lutam constantemente contra as conseqüências dos
derramamentos de petróleo, queima de gás e outras ameaças
decorrentes das atividades de exploração desreguladas das companhias
de petróleo internacionais. Muitas mulheres nestas comunidades de
subsistência suportam a pesada tarefa de cuidar de suas famílias,
protegendo elas da implacável poluição. A taxa de casos de câncer,
infertilidade, leucemia, bronquite, asma, natimortalidade, bebês
deformados e outras doenças relacionadas com a poluição é
inusualmente alta nesta região. Desde Ikarama até Akaraolu e
Imiringi, as mulheres estão magoadas e estão morrendo.

Como disse um granjeiro, Marthy Berebo, "Se eu me despisse perante
você, você verá o grau dos danos que essa poluição tem causado em
meu corpo. Meu corpo inteiro está cheio de dores.”

Ikarama, comunidade principalmente de pesca e de atividade granjeira
de 10.000 habitantes, também está classificada como uma das
comunidades mais poluídas no Delta do Níger. Estabelecida ao longo
do riacho Taylor, Ikarama alberga tanto à Nigeria Agip Oil Company
(NAOC) quanto à Shell Petroleum Development Company (SPDC). Os
oleodutos da Shell, que unem os Estados do Delta, Bayelsa e Rivers,
todos passam através de Ikarama. O coletor Okordia da Shell também
está localizado em Ikarama. Assume-se que albergando grandes
companhias internacionais como a Shell, as comunidades florescem. Mas
o contrário acontece com Ikarama, já que está em uma profunda e
escura concentração de pobreza. Os caminhos ainda devem ser
pavimentados, como prometeu a companhia, enquanto as vidas das pessoas
estão piorando, com seus meios de vida destruídos pelos freqüentes
derramamentos de petróleo.

Alili Ziah é uma viúva com sete crianças. Antigamente, ela podia
alimentá-los através da pesca, mas agora a água está poluída, e
sua família foi forçada a depender da caridade de outras pessoas.
"Toda vez que deixo armadilhas, quando vou a inspecionar, estão
impregnadas com petróleo cru" ela apontou. Como Ikarama, Imiringi tem
estado albergando vários dos sítios de queima de gás da Shell desde
1972. As implicações para a saúde decorrentes das chamas abertas e
venenosas são enormes. As pessoas que vivem perto se queixam de
erupções na pele, vermelhidão dos olhos e outras complicações. A
poluição é bastante provável, já que as mulheres geralmente secam
seus alimentos básicos locais, kpopko garri, perto desses locais de
queima de gás. A saúde reprodutiva das mulheres também tem sido
afetada, como é possível ver no aumento crescente de casos de
infertilidade e deformações no nascimento.

O petróleo tem sido o sangue vital da Nigéria desde o final da
década de 50, quando a Shell obteve o primeiro poço de petróleo bem
sucedido em Oloibiri, no Estado de Bayelsa em 1956. Oitenta por cento
da riqueza do país é quilômetros de linhas de fluxo e 400
quilômetros de oleodutos. Possui 349 sítios de perfuração. No auge
de suas operações, a Shell produzia um milhão de barris de
petróleo cru todo dia. Há perspectivas de que o número aumente mais
uma vez.

Apesar disso, as companhias tem muito pouco para mostrar em termos
de suas contribuições ao desenvolvimento das comunidades. De fato,
elas tem simplesmente sujeitado as comunidades a mais pobreza e
doenças, por causa de seus meios desregulados de poluir a terra, a
água e o ar. Somente no Delta do Níger há mais de uma centena de
sítios que queimam gás. Com muito dinheiro envolvido nesta
indústria, não surpreende ver conflitos que cobram as vidas de mais
de 1.000 pessoas todo ano.

Das companhias de petróleo que operam no Delta do Níger, a Shell
tem sido considerada como a mais notória, já que aprovou abusos aos
direitos humanos perpetrados por forças de segurança empregadas por
ela. A Shell arma, equipa e paga pessoal de segurança do governo que
são sempre rápidos para reprimir quaisquer sinais de insurreição e
perpetram injustificáveis abusos aos direitos humanos. Em tudo isso,
as mulheres são as principais vítimas, como viúvas e mães. Elas
têm sido os pilares das famílias em cujos ombros recaem muito
sofrimento e privação.

Muitas mulheres ainda têm cicatrizes e têm corpos deformados em
decorrência dos operativos militares que pagados pela Shell invadiram
as comunidades com tanques armados, revólveres e armas, atirando e
matando centenas de pessoas, incluindo mulheres e crianças,
derrubando povoados inteiros e aleijando milhares, na época na que
Ken Saro-Wiwa despertou a consciência da nação e da comunidade
internacional sobre a injustiça ambiental em Ogoniland.

O braço esquerdo de Promise Yibari Maapie ficou permanentemente
inutilizado em decorrência de um tiro. Sua filha Joy, também recebeu
tiros em suas pernas. "Os soldados trouxeram dor, tristeza e fome para
minha vida", ela disse para um jornalista. Depois do infame genocídio
de Ogoni, tem havido muitos casos, incluindo o da Massacre de Odi em
1999, no que cidades inteiras foram devastadas. Foi um movimento de
represália pelas tropas do governo, decorrente da morte de alguns
militares por militantes. Em meados de 2009, aconteceram massacres e
bombardeios em vários povoados do Reino de Gbaramatu no Delta do
Níger. No processo, muitas mulheres foram mortas, feridas o
deslocadas. Também houve casos daquelas que deram à luz nas
florestas e riachos, enquanto fugiam do ataque militar. Como de
costume, houve denúncias de violações pelos soldados.

As mulheres são as principais vítimas na tragédia do Delta do
Níger. Além de lutar com chamas de gás e derramamentos de
petróleo, elas também vivem o perigo em suas vidas. Quando oleodutos
ferrugentos que trasladam petróleo cru explodem, terras agrícolas,
florestas, córregos e rios são danificados. Montes de pessoas
também são mortas como em outubro de 1998, quando a explosão de um
oleoduto queimou aproximadamente 2000 pessoas na cidade de Jesse no
etíope Município Local no Oeste do Estado do Delta. O que é pior,
as intervenções do governo são inexistentes e quando existem, são
tardias ou mal planejadas. Além disso, as construções de gigantes
projetos de perfuração poluem e alteram os cursos de água das
comunidades, privando os residentes de acesso à água. Estes impactos
são sentidos mais pelas mulheres. Além de ser granjeiras, elas
também fornecem alimentos e água para a família.

Apesar da tragédia que seus corpos carregam, as mulheres têm
ficado sem voz em muitas comunidades. Na maioria das comunidades, é
precisa a intervenção especial das organizações da sociedade
civil, para que as mulheres sejam autorizadas no fórum consultor da
prefeitura onde se discutem temas que envolvem as comunidades. Os
homens sempre insistem que os assuntos a serem discutidos são sérios
demais para as mulheres. Em muitos casos, as mulheres não podem
alegar propriedade da terra. As terras agrícolas geralmente pertencem
a maridos e pais. As mortes de seus maridos ou o divórcio poderiam
resultar no final de sua permanência nessas terras. Portanto, os
desastres ambientais constituem uma dupla tragédia para as mulheres.

No entanto, em algumas comunidades as mulheres estão
organizando-se, tentando desfazer as malignas amarrações de costumes
retrógradas e tomem seus destinos em suas próprias mãos.

Extraído e adaptado de : “When Blessing Becomes a Curse in the
Niger Delta”, por Betty Abah, para Women in Action, a Revista de
ISIS International, baseada nas Filipinas, publicado em fevereiro de
2010 (edição titulada Women in a Weary World: Climate Change and
Women in the Global South).O artigo pode ser lido on-line com imagens
em hhttp://ttp://www.wrm.org.uy/bulletin/152/Nigeria.html
. A Sra. Abah é a Responsável de Gênero de Environmental Rights
Action/Friends of the Earth Nigeria. E-mail: betty@eraction.org
<javascript:location.href=>
/ bettyabah@yahoo.co.uk <javascript:location.href=>

O documento pode ser visualizado em
http://www.isiswomen.org/index.php?option=com_content&view=frontpage&Itemid=28

inìcio <#0>

- Papua-Nova Guiné: associação e fortalecimento das mulheres em
plantações de dendezeiros

Em finais de 2008, o WRM e Friends of the Earth Papua New
Guinea/CELCOR organizaram um workshop conjunto com mulheres locais na
Papua-Nova Guiné. O workshop referia-se às plantações de
dendezeiros que estão sendo promovidas principalmente para fornecer
azeite de dendê ao mercado europeu (usado em produtos, como por
exemplo, cosméticos, sabão, óleo vegetal e alimentos), bem como
para a produção de agrocombustíveis.

Em um país onde a maioria de sua população de 5 milhões ainda
vive nas áreas rurais e baseia sua subsistência na agricultura, a
produção guiada para a exportação dos dendezeiros está aumentando
à custa dos meios de vida tradicionais.

O workshop reuniu mulheres de diferentes províncias e lhes permitiu
expressar suas preocupações a respeito da expansão das plantações
de dendezeiros: possível escassez de terras devido à expansão dos
dendezeiros; poluição de rios, córregos, bem como solos e o ar, em
decorrência do uso de agrotóxicos nas plantações.

No entanto, elas foram além e também trataram de assuntos de
mulheres, dando idéias sobre os impactos das plantações de
dendezeiros e sobre sua condição de mulheres. Elas se referiram ao
reforço do controle dos homens sobre as mulheres, através do
crescente controle dos homens sobre a renda da produção de
dendezeiros; a restrição do acesso das mulheres a terras para
cultivar, em decorrência da conversão das terras agricultáveis
tradicionais em plantações de dendezeiros, transtorno social,
incluindo maior alcoolismo e violência doméstica.

A reunião serviu como catalisador para a necessidade das mulheres
de organizar-se, e um dos resultados do workshop foi um plano para
estabelecer uma associação de mulheres dentro do quadro da campanha
sobre assuntos de dendezeiros. Em novembro de 2009, foi estabelecida a
associação Women in Oil Palm Association (WOPA), e neste ano de
2010, está em processo de ser registrada na Autoridade de Promoção
dos Investimentos.

A Associação foi formada com o fim de:

• “Expor os impactos da indústria do azeite de dendê na Papa
Nova Guiné sobre as mulheres e as crianças através de
conscientização e mobilização comunitária

• Fazer campanha para a mudança em políticas governamentais,
práticas de manejo de companhias de dendezeiros sobre o meio
ambiente, meios de vida sociais e de sustentação e bem-estar das
mulheres e das crianças

• Fazer campanhas e lobby pelos direitos das mulheres e das
crianças contra a privação e violação pela indústria

• Unir as mulheres atingidas, para formar uma base sólida e
estabelecer uma rede de mulheres para fazer campanhas sobre assuntos
que afetam as mulheres e as crianças

• Proteger e promover os direitos das mulheres e das crianças

• Atuar como um corpo, uma voz ou um catalisador para as mulheres
afetadas pelos dendezeiros

• Fazer campanhas e lobby para que o meio ambiente e os meios de
sustentação da comunidade sejam defendidos, preservados e manejados
de forma sustentável.”

A criação da WOPA é importante para apresentar os assuntos das
mulheres na indústria dos dendezeiros na Papua-Nova Guiné, que raras
vezes são abordados e são excluídos por políticas empresariais ou
determinadas leis na constituição da Papua-Nova Guiné. A iniciativa
da Women in Oil Palm Association é uma ajuda para as mulheres que
estão fazendo campanhas pacíficas sobre os temas dos dendezeiros que
estão tendo impacto em seus meios de sustentação.

Há muitos desafios no futuro para as mulheres organizadas sob a
WOPA. No entanto, é um importantíssimo passo no processo de
empoderamento das mulheres na luta por seus direitos, e como elas
dizem "para que o meio ambiente e os meios de sustentação
comunitários sejam defendidos, preservados e manejados de forma
sustentável".

Adaptado do artigo "WOMEN IN OIL PALM ASSOCIATION (WOPA)" enviado
por George Laume, de Friends of the Earth Papua New Guinea-CELCOR,
e-mail glaume@celcor.org.pg <javascript:location.href=>
. O artigo completo pode ser acessado em
http://www.wrm.org.uy/countries/PapuaNG/WOPA.pdf

inìcio <#0>

- Brasil: mulheres atingidas por barragens - mudanças nos modos de
vida

A construção de usinas hidrelétricas no Brasil é marcada pelo
desrespeito ao meio ambiente e à sociedade, sobretudo o desrespeito
às populações atingidas, que vêem seus modos de vida se alterar
drasticamente e, em nome do “desenvolvimento da sociedade
capitalista”, se anular. No nosso país já foram construídas mais
de 2.000 barragens que expulsaram mais de 1 milhão de pessoas de suas
terras. Projetos do governo federal prevêem a construção de mais de
1.443 barragens nos próximos 20 anos; são obras que trazem consigo a
falsa promessa de geração de emprego e desenvolvimento, de respeito
à natureza, de energia mais barata para o povo e de garantir os
direitos de indenizações das famílias. No entanto, o que temos
vivenciado é o controle das barragens por multinacionais, a geração
de poucos empregos, a energia mais cara para os trabalhadores e o não
pagamento de indenizações.

Ou seja, há uma ditadura instalada contra o povo que vive na beira
dos rios. E não são apenas impactos concretos e materiais, como o
alagamento de florestas, cidades, escolas, casas, mas também impactos
imateriais e afetivos, pois com a perda do vínculo espacial,
perdem-se também os laços familiares, a vivencia com a comunidade e
a referência da vizinhança, entre outros que atacam diretamente o
“sentimento”, acarretando sérios danos à saúde e ao bem estar
das populações atingidas.

Mudanças de hábitos e inferências econômicas

Não podermos atribuir aos projetos de barragens a responsabilidade
integral pela desigualdade nas relações de gênero, mas eles alteram
as condições preexistentes e tendem a agravá-las. A sociedade
capitalista e patriarcal é reforçada pela ação das empresas em
iniciativas locais (onde a barragem está sendo ou foi construída) e
estruturais do modelo capitalista.

O anúncio da construção das usinas traz diferentes reações de
comportamento entre mulheres e homens. Na maioria das vezes
verifica-se que as mulheres têm forte resistência em sair do
território e não conseguem assimilar a possibilidade de mudanças
daquele espaço. Já alguns homens se convencem com mais facilidade e
vêem a possibilidade de ganhar compensação financeira ao sair do
local. Um dos fatores que justificam isto é que, historicamente, os
homens vinculam-se às atividades que geram ou movimentam recursos
financeiros (dinheiro), ao contrário das mulheres.

Por residirem em áreas rurais, a maioria das atingidas pelas
barragens mantém uma relação próxima com a terra. Usam os recursos
da natureza principalmente para a alimentação, mas também usam
outros bens destinados ao consumo da família, como chás, energia da
lenha para cozinhar e aquecer, etc. Neste sentido, as mulheres são as
principais vítimas da degradação ambiental, que implica em perdas
imensuráveis para comunidades que dependem da natureza para
sobreviverem.

Isso se comprova pelo dado de que 70% das famílias atingidas por
barragens no Brasil não receberam indenização e nos poucos casos de
reconhecimento dos direitos, a nova área é muito menor que a
anterior. Sendo assim, as mulheres acabam perdendo seu espaço de
produção camponesa e de autonomia. Perdem a horta ou quintal, a
área de produção variada de alimentos (árvores frutíferas, ervas
medicinais e animais domesticados), a área de experimentação e
conservação de sementes, de complementação da renda e
enriquecimento da dieta nutricional das famílias, espaços onde elas
definiam o que plantar, como plantar, que sementes cultivar, etc.

Essa mudança não implica apenas na perda deste espaço de poder e
decisão da mulher, mas no aumento da sua dependência econômica com
relação ao mercado e à farmácia, por exemplo. As comunidades que
antes da barragem mantinham a relação com a natureza como um fator
fundamental para a continuidade dos seus estilos de vida, no novo
contexto, as mulheres são as maiores prejudicadas e tendem a sofrer
tais impactos negativos com maior intensidade.

O processo de esvaziamento das comunidades que “sobraram” e não
foram atingidas pelo enchimento do lago, tem como conseqüência a
perda dos elos familiares, das relações de vizinhança e o
esvaziamento dos espaços de encontro comunitário, como a igreja. Ao
passo em que as comunidades se esvaziam, escasseia-se o serviço de
transporte público, fecham-se as escolas rurais e os sistemas locais
de atendimento à saúde. Assim, pode-se imaginar o impacto sobre a
vida das mulheres, uma vez que recai sobre elas a provisão do cuidado
com a família, com as crianças, idosos, portadores de necessidades
especiais, etc. Com a escassez e, muitas vezes suspensão, dos
serviços públicos de transporte a mobilidade das mulheres, e
possivelmente o acesso ao emprego, estudo e lazer, se torna mais
difícil.

Estas populações foram expropriadas, não somente no sentido
jurídico. Estas pessoas que vivem dos rios e nas margens deles
perderam as suas condições materiais de trabalho e foram
desenraizadas, transplantadas geograficamente e culturalmente,
expropriadas de um saber e de uma sintonia com o meio físico, a sua
vizinhança, com valores “abstratos”, porém de grande
importância sentimental e principalmente referencial, os quais jamais
serão reconstruídos, nem podem ser medidos pelo dinheiro.

Relações afetivas e a saúde da mulher

O empobrecimento e o trauma com a ruptura social das comunidades
têm um efeito mais severo sobre as mulheres, principalmente no que se
refere às relações afetivas e de saúde. Em alguns casos, o
empobrecimento gerado pelo deslocamento compulsório das pessoas e a
chegada truculenta dessas grandes obras, aumentam os desentendimentos,
a desestruturação familiar, o abandono das famílias e a migração
masculina para as áreas urbanas, elevando o número de casas
chefiadas por mulheres, que passam a arcar sozinhas com toda a
responsabilidade da criação dos filhos. O aumento da violência
doméstica, decorrente do alcoolismo, é outro efeito agravado pela
desestruturação das famílias e o empobrecimento.

Quanto à saúde, normalmente a administração da casa e o bem
estar da família é de responsabilidade da mulher. É ela que
controla o que tem e o que está faltando, e visualiza a necessidade
de “poupar” os recursos disponíveis para garanti-los por mais
tempo. Isso se reflete na sua situação nutricional, pese o fato de
que os padrões culturais, em diversas regiões do país, reproduzem a
desigualdade entre os gêneros quando da distribuição do alimento no
interior das famílias. Em algumas pesquisas, constatou-se que era
recorrente a distribuição desigual dos alimentos entre homens e
mulheres na família, especialmente em situações de maior escassez,
como ocorre depois da chegada das barragens. “Às mulheres e meninas
é atribuída uma menor porção ou são excluídos alguns alimentos
considerados mais "fortes" (carne, por exemplo), uma vez que seu
trabalho é considerado "leve", exigindo “menor reposição de
energia”.

Ainda quanto à saúde das mulheres, a chegada de operários de
outras regiões e estados para a construção da barragem e a
conseqüente urbanização da região são fatores que podem elevar o
nível de doenças sexualmente transmissíveis, especialmente a AIDS.
Além disso, ocorre o aumento de casos de gravidez de adolescentes,
que ficam sozinhas logo em seguida, já que depois da construção da
barragem os rapazes procuram outro trabalho em outro lugar.

Se não bastasse essas relações “ocasionais”, uma das
estratégias utilizadas pelas empresas é a contratação de rapazes
para seduzir as moças e assim, aproximar-se das famílias com o
objetivo de convencê-los a sair pacificamente da comunidade e a não
participar das atividades propostas pela organização dos atingidos
por barragens. Outra constatação é a instalação de “negócios
da prostituição”, popularmente conhecidos como “zonas”,
próximo ao canteiro de obras da barragem ou junto ao alojamento dos
trabalhadores. Essa estratégia das empresas tem o objetivo de
“entreter” os operários, que estão longe de suas famílias a
bastante tempo. Em alguns casos, há a mercantilização do corpo das
mulheres com a venda de adolescentes para a prostituição, podendo
até influenciar e facilitar o tráfico internacional de mulheres.

Os fatos pontuados acima não esgotam as perdas femininas em
decorrência das construções de barragens, são inúmeras as
conseqüências sofridas pelas mulheres, o nosso objetivo é colocar a
discussão em pauta, trazendo à tona questões que atingem
diretamente às mulheres e que ao longo dos tempos foram relegadas ao
esquecimento, levando as questões de gênero a uma certa
invisibilidade. É possível que além dessas, muitas outras questões
estejam em aberto para serem investigadas e tomadas para análise e
aprofundamento, para o reconhecimento das mulheres como sujeitos
políticos no processo de transformação social.

Por Movimento dos Atingidos por Barragens – Brasil, enviado por
Setor de Comunicação – MAB, correo electrónico:
imprensa@mabnacional.org.br <javascript:location.href=>
, http://www.mabnacional.org.br

inìcio <#0>

- Legado nada promissor: as mulheres começam a se organizar contra
a mineração de ouro na Tailândia

Frondosos arrozais, campos cultivados de hortaliças, montanhas com
florestas e povoados tranqüilos no distrito de Wangsaphung da
província de Loei no nordeste da Tailândia poderiam conformar um
oásis de tranqüilidade rural, com ar puro para respirar, hortaliças
e frutas frescas para comer e água doce para beber. Desde as terras
altas montanhosas até as terras baixas ao longo dos bancos do rio
Mekong e seus afluentes, as terras férteis providenciam colheitas
sazonais de noz de macadâmia, banana, lichia, olho-de-boi, manga,
maracujá, tamarindo, grãos de café, grãos de soja, milho, arroz,
gergelim, e caucho. No passado era realizada a garimpagem de ouro em
pequena escala ao longo dos leitos dos rios, já que a área é rica
em minerais, como ouro, cobre e ferro. No entanto, hoje a terra e a
água das quais o Povo Isaan dependeu durante gerações estão
envenenadas por cianeto, arsênico e outros metais pesados. A
procedência foi encontrada na recém- aberta área de mineração de
ouro operada por uma companhia tailandesa de origem australiana, a
Tongah Harbour Plc.

Em 1996, o Departamento dos Recursos Minerais da Tailândia iniciou
um processo de aprovação para a concessão de licença de
mineração de ouro em Wangsaphung solicitada pela Tugkam Ltd. (TKL),
uma subsidiária da Tongah Harbour que conta com o apoio financeiro da
Austrália e a Alemanha. O Ministério da Indústria tailandês
outorgou a autorização final em 2003 para o concessão de uma
parcela de aproximadamente dois quilômetros quadrados durante vinte e
cinco anos. Em setembro de 2006, a TKL começou suas atividades na
primeira mina de ouro a céu aberto localizada em topo de montanha que
já tinha sido designado pelo governo tailandês como uma área de
conservação. Até hoje, apenas duas áreas foram abertas, abrangendo
um total de dois quilômetros quadrados, bem como uma fábrica local
para cianetação e tratamento de carbono do ouro. No início de 2009,
mais de cem pedidos de exploração mineira da TKL estavam pendentes
de serem aprovados pelo governo tailandês.

Os moradores locais da área não souberam nada das licenças de
mineração até a chegada da maquinaria da TKL. Apesar de a TKL ter
alegado que tinha tomado as adequadas providências para fazer
consultas com a comunidade, não há nenhuma documentação
disponível a respeito do local onde essas consultas foram feitas, de
quem participou delas nem do que foi discutido. Os moradores locais
reclamam que essas reuniões não foram anunciadas publicamente e que
a empresa escolheu meticulosamente as poucas pessoas que compareceram.

Conforme ativistas locais, não há acesso público aos acordos
feitos entre a empresa e o governo nem ao certificado de concessão
que indicaria o tipo e a duração das atividades mineiras nas terras
que rodeiam suas granjas. Além disso, foi apenas em 2008 que alguma
informação a respeito das avaliações de impacto ambiental (EIAs)
exigidas pela lei foi divulgada. Tais estudos foram concluídos
sigilosamente por duas firmas australianas, em conjunto com a empresa
tailandesa, e com os acadêmicos tailandeses da Universidade de Khon
Kaen, sem nenhuma contribuição nem participação dos moradores.

Mesmo que a Tungkam alegue estar comprometida com o “manejo
ambiental”, os moradores locais informam que alguns dos efeitos mais
devastadores da mineração estão relacionados com a perda de fontes
locais de água limpa. A área de mineração interferiu com a rota de
um manancial natural, que originariamente trazia água prístina e
fresca desde a montanha através de Wangsaphung. Como uma medida de
mitigação, a empresa desviou o córrego para que agora flua pelos
arredores da periferia da mina. Os moradores alegam que o manancial
está poluído, mas não apenas com resíduos mineiros como também
COM A INADEQUADA ELIMINAÇãO dos detritos sólidos da área mineira.
Desde 2006, foram vistos inúmeros peixes envenenados flutuando nos
córregos locais em muitas ocasiões. Com elevados níveis de cianeto
e outros metais pesados, esse córrego flui diretamente para o rio
Loei, um afluente do transfronteiriço rio Mekong. Além disso, os
moradores percebem que a água poluída da mina desce a montanha
durante os monções, e eles estão preocupados porque os metais
pesados irão filtrar na água subterrânea. Ao mesmo tempo, na
estação seca, a poeira da mina é carregada pelo vento para as
áreas residenciais, exacerbando as doenças respiratórias entre a
população local.

Pela primeira vez na história, os agricultores informam a grave
escassez de água que implica arrozais secos e solos áridos e
rachados. Com os tanques de resíduos mineiros ao lado de suas terras,
a maior parte dos residentes expressa receio pelos níveis incertos de
poluição nas frutas, hortaliças e arroz que eles ainda tentam
cultivar. Devido ao nível de contaminação e acidificação da água
das chuvas, os residentes já não podem depender da coleta natural de
água para beber. Em vez disso, eles tiveram que começar a comprar
água, colocando mais pressão nos já apertados pressupostos
familiares.

Ao perceberem a necessidade de aumentar a renda a fim de enfrentar a
compra de alimentos e água, algumas mulheres viajam com maior
freqüência à capital provincial para fazer bicos diários.
Ultimamente, a capacidade dos moradores locais para manter suas
práticas de soberania alimentar e sustento auto-suficiente
desapareceu, enquanto seus direitos a alimentos, água e saúde foram
completamente roubados. Como únicas responsáveis por cozinhar,
limpar e providenciar água bem como outras necessidades diárias, as
mulheres testemunham que se incrementaram, conseqüentemente, as
pressões relacionadas à vida doméstica.

Durante os últimos dois anos, os moradores locais começaram a
denunciar erupções, problemas respiratórios, irritação severa dos
olhos, enxaquecas crônicas, vertigem e sensações de fraqueza em
suas extremidades. Adicionalmente, as explosões freqüentes e
regulares da mina causam não apenas rachaduras nas estruturas das
moradias e quebras dos vidros das janelas, como também palpitações
entre os idosos, e níveis crônicos de agonia entre as crianças.

Depois de trabalhar em seus arrozais, as mulheres e os homens sofrem
irritações cutâneas que resultam em descascamento da pele e
abertura de ferimentos que supuram. Os homens que trabalham na mina
experimentaram sérios problemas de saúde, inclusive doenças
cutâneas, problemas oculares e pulmonares, insônia e degeneração
neurológica. Enquanto isso, as mulheres informam que depois de
lavarem as roupas usadas na mina e os campos, elas sofrem rachaduras
nas mãos e braços, dores oculares e dificuldades respiratórias.
Análises de sangue feitas em crianças mostraram sólidas evidências
da presença de elevados níveis de cianeto e outros metais pesados.
Um relatório recente, emitido em fevereiro de 2009 pelo governo
tailandês também alertou os moradores para eles se absterem de beber
a água local ou de usá-la para cozinhar devido aos elevados níveis
de cianeto, arsênico, cádmio e manganês.

A polícia e os guardas de segurança armados têm trabalhado com a
Tungkam para monitorar a área mineira e a comunidade, informando quem
entra na área e na vizinhança circundante. Em geral, a população
local está intimidada para falar publicamente sobre os impactos da
mineração, e em conseqüência, as vozes dos defensores da justiça
ambiental e social permanecem mudas. A falta de oportunidades para
participar das decisões que afetam o futuro de suas terras e seu
sustento, bem como o silêncio dos dissidentes podem ser entendidos
como nada menos do que sérias violações dos direitos políticos e
sociais garantidos pelas leis nacionais e internacionais.

Inicialmente, os moradores locais estavam frustrados pela falta de
comunicação, de consulta e de franqueza sobre os planos da Tungkam
para as terras ancestrais dos Isaan. Posteriormente, documentos sobre
a licença para mineração vazaram chegando às mãos de um biólogo
local, as informações foram espalhadas na comunidade em 2006. A
partir de então, um pequeno grupo de moradores- a maioria mulheres-
preocupados formaram um comitê ad hoc que vem organizando reuniões
comunitárias para discutir os impactos da exploração de ouro nas
fontes de água locais, nos solos e nas hortaliças, na qualidade do
ar e na saúde das pessoas. Foram celebrados fóruns públicos e
discussões abertas, exibições fotográficas e oficinas. Conforme os
membros do comitê, principalmente são as mulheres- e em particular,
as novas gerações- as que participam dessas discussões sobre os
impactos da mineração, e sobre as estratégias para mudarem essa
situação. Em novembro de 2006, um intercâmbio com ativistas da
Birmânia, o Camboja, a Indonésia e as Filipinas foi celebrado em
Wangsaphung como parte de uma mobilização internacional contra a
mineração comercial de ouro em grande escala. Conforme as mulheres
locais, depois dessa exposição internacional, a segurança foi
intensificada na área mineira.Aqueles que tentam investigar as
atividades da Tungkam começaram- e ainda continuam- a ser alvo de
táticas de intimidação severas.

Durante 2008, os moradores locais contribuíram a documentar os
impactos na saúde do envenenamento por cianeto. Eles começaram
então a apresentar queixas junto às comissões nacionais de direitos
humanos e da saúde. Um relatório emitido pela Comissão dos Direitos
Humanos exigiu que a Tungkam limpasse as áreas poluídas. No entanto,
apesar de os comissionários validarem as preocupações comunitárias
e condenarem as atividades da empresa, não foi tomada nenhuma
providência corretiva. Em vez disso, a Tungkam começou a publicar
seu compromisso com a “ética corporativa”, e está patrocinando
as festas escolares, os torneios esportivos e bolsas de estudo para os
jovens. Para os moradores de Wangsaphung, essas iniciativas são pouco
honestas, e desmerecem as sérias preocupações que eles têm sobre
os legados duradouros do envenenamento por cianeto e arsênico.

No final de 2009, o comitê da comunidade de Wnagsaphung buscava
deter os planos de expansão da Tungkam quanto à fábrica de
cianetação e processamento do ouro. Os protestos ocorreram na sede
distrital do governo local e foi exigido que os documentos com
detalhes da expansão fossem divulgados. Manifestações das redes da
sociedade civil estão planejadas. Simultaneamente, as mulheres estão
organizando cooperativas de alimentos e tecidos, que permitem que elas
mantenham o senso de identidade, a continuação de princípios
ecologicamente sensíveis e a prática da auto-suficiência. Esse
trabalho de base pretende formar o alicerce da solidariedade coletiva
a partir da qual lançar uma campanha para o encerramento da mina, e a
proibição de novas minas em terras dos Isaan.

Por Tanya Roberts-Davis com a equipe Thai pelas Comunidades Afetadas
pela Mineração/ Grupo de estudio Eco-Culture , Email:
troberts@alumni.upeace.org <javascript:location.href=>

inìcio <#0>

- As mulheres e a mudança climática, as mais afetadas e as menos
ouvidas

Em um estudo recém- publicado na Alemanha sobre Clima e
Desenvolvimento podemos encontrar as seguintes afirmações: “A
pobreza atinge muitas pessoas, demasiadas pessoas- e afeta homens e
mulheres de forma diferenciada e em número diferente. A maioria dos
pobres são mulheres, como constatado pela pesquisa e isso está
ligado ao fato de, na grande maioria dos países, as mulheres e as
moças sofrerem discriminação legal e social. As mulheres têm menor
acesso à educação e à saúde do que os homens, e não têm as
mesmas oportunidades econômicas.

Há boas razões para acreditar que um dos resultados de tal
discriminação social e política das mulheres é que elas também
são afetadas de forma diferenciada pela mudança climática - uma
circunstância que exacerba a pobreza e os riscos que elas
enfrentam”. (1)

Uma das boas razões para acreditar que isso é verdade surge do
fato de a maioria das pessoas atingidas pelos piores desastres
climáticos ocorridos nos últimos anos serem pobres e mulheres, na
grande maioria dos casos. Na Indonésia, por exemplo, durante o
tsunami se afogaram muitas mais mulheres do que homens por diferentes
motivos: porque não sabiam nadar, porque ficaram para cuidar suas
crianças até o último momento, porque ficaram encerradas, porque
ficaram sabendo tarde demais, porque seus longos vestidos não
deixaram que elas fizessem os esforços necessários para se salvar,
etc.

Em um artigo sobre “Mulheres e Mudança Climática”, Kellie
Tranter, uma advogada australiana, descreve algumas das causas de
morte acima mencionadas e demonstra que nos desastres denominados
“naturais” morreram mais mulheres do que homens: 90% das 14.000
vítimas que morreram no ciclone que impactou Bangladesh em 1991 foram
mulheres, mais mulheres do que homens morreram pela onda de calor que
açoitou a Europa em 2003, e no tsunami da Indonésia em 2006,
morreram de 3 a 4 mulheres por cada homem. (2)

Testemunhos revelados em 2009, em um estudo realizado com mulheres
da Alemanha, Bolívia e Tanzânia (3) evidenciam que as mulheres
estão sobrecarregadas com suas atividades quotidianas devido à
mudança climática. Um exemplo disso acontece no departamento de
Oruro na Bolívia. “Em épocas com ondas de calor secam as fontes de
água e a água restante torna-se cada vez mais salgada e assim cada
vez menos potável. As ventanias levam a terra solta e a secam. Além
disso, aparecem novas espécies de parasitas. Há grandes prejuízos
causados por uma espécie de piolho que ataca a raiz da alfafa, e
assim mata a planta forrageira”. A mudança de temperaturas também
faz que as culturas que antes cresciam com facilidade agora já não
cresçam, e tanto as contínuas geladas quanto as chuvas ocasionam
perdas. Também diminui o gado, pela falta de pastagem e porque
apareceu uma “nova e agressiva espécie de mosquito que ataca tanto
os seres humanos quanto os animais. Em suma, a mudança climática faz
que a já penosa vida trabalhista das bolivianas ainda seja mais
dura”.

Histórias bem semelhantes contam as mulheres de Dodoma, Tanzânia.
As secas contínuas obrigam às mulheres “a percorrer um caminho
cada vez mais longo para conseguir água e às vezes são forçadas a
comprá-la... as colheitas minguaram de forma catastrófica. Isso
causa uma preocupante escassez de alimentos no povo todo”... As
mulheres devem usar diversas estratégias a fim de sobreviverem.
Gladis, por exemplo, explica que, “como já não podemos contar com
a renda da agricultura... também me dedico à horticultura e à
criação de porcos e galinhas. Além disso, costuro mochilas para a
escola... fabrico cerveja local e faço bicos”. Mas elas também
reclamam que não sejam as únicas que devam se sacrificar. Exigem que
o governo evite o contínuo corte de árvores e a queima de florestas
que pioram o abastecimento de água e o clima ao tempo que solicitam
que os países industrializados mudem seu estilo de vida.

As mulheres não podem continuar sendo vítimas e devem ser
protagonistas na hora da elaboração de políticas relacionadas com a
mudança climática. Se bem que já obtiveram alguns reconhecimentos
formais, estes não estão refletidos nas propostas nem nas estruturas
da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança Climática.

Por um lado, grande parte das políticas propostas como (falsas)
soluções para o clima irá agravar ainda mais as situações acima
descritas. Por exemplo, a promoção de culturas em grande escala para
ser usadas como combustíveis e as monoculturas de árvores como
supostos sumidouros de carbono já provaram que têm impactos
negativos sobre as florestas, os solos, a água e também sobre as
mulheres.

Por outra parte, as mulheres têm sérias dificuldades para ser
levadas em conta inclusive dentro da própria estrutura da
Convenção, contrariando assim seus próprios enunciados. Em dezembro
de 2007, em Bali, líderes internacionais declararam pela primeira vez
que os “assuntos de gênero são pertinentes nas políticas
relacionadas com o clima”. Em 2009, a Convenção reconheceu
formalmente a participação de grupos de mulher e gênero. No
entanto, recentemente, o secretário geral das Nações Unidas, Ban
Kimoon, anunciou a criação de um grupo “de alto nível”
encarregado nada menos que de conseguir fundos para enfrentar os
impactos negativos da mudança climática nos países mais pobres e
desenvolver uma economia que não esteja baseada no uso de
combustíveis fósseis. (4). São 19 membros. Todos homens. Nas suas
mãos pode estar o destino da humanidade. (5)

Os enunciados de “equidade de gênero” devem estar refletidos
nos fatos. Já não há mais tempo. As mulheres, além de serem as que
mais sofrem os efeitos da mudança climática são também
fundamentais para encontrar soluções. Resolver as desigualdades de
gênero é questão tanto de justiça como de sobrevivência.

(1) Extraído de “Climate Change Adaptation from a Gender
Perspective, A cross-cutting analysis of development-policy
instruments de Birte Rodenberg para DIE Research Project “Climate
Change and Development“, Bonn 2009

(2) Publicado no Mirada Global.com http://www.miradaglobal.com/

(3) Fortalecer às mulheres. Mudar o clima! VEN

(4) Extraído do artigo de Elizabeth Becker e Suzanne Ehlers “Why
are women being left out of climate decision-making?”
http://www.grist.org/article/2010-03-08-why-are-women-being-left-out-of-climate-decision-making-u.n/

(5) Informações adicionais de comunicados de imprensa da Gender CC
estão disponíveis em: http://www.gendercc.net/

inìcio <#0>

- As invisíveis mulheres e homens que resistem contra a
destruição de seu território no Norte do Grande Chaco

Viver não deve por que ser uma luta contra poderes assassinos. A
vida das mulheres e dos homens Ayoreo dos grupos isolados (sem contato
com nossa civilização) não era uma luta, era vida em e com os
territórios, como durante séculos. Hoje, no entanto, e
independentemente de sua vontade, sua vida vira uma resistência, um
agüente -e uma obrigação de lutar- desde que outro mundo veio a
invadir e a sobrepor-se ao deles...

Não é essa também nossa história, estejamos onde estejamos? De
ver-nos presos, enredados e atascados em situações de resistência e
de agüente, quando nosso interesse simplesmente era o de ficar
tranqüilos, de sentir felicidade, de viver?

As mulheres e os homens indígenas Ayoreo dos seis ou sete grupos
que vivem "em isolamento voluntário", uma condição e denominação
que não foi procurada por eles, mas que é o resultado de um processo
de extermínio e encurralamento, são hoje uma ínfima mas
significativa minoria humana. Antigamente, os povos indígenas que
povoavam toda nossa América, cada um com seu mundo diverso, eram
maioria, e os minoritários e "isolados" eram os primeiros
colonizadores e invasores.

Hoje, os grupos isolados Ayoreo continuam vivendo nas florestas do
norte do Grande Chaco: caminhando e percorrendo seus territórios
grupais, de lugar em lugar, e ao fazê-lo, acham a vida e dão vida a
cada canto de sua rica e variada geografia, a que nós, com olhos de
alheios à vida do mato muitas vezes percebemos como uma simples
extensão de floresta uniforme e invariável na planície do Chaco.
Nossa linguagem, que virou econômica, tende a descrever esse seu
andar nômade como um asseguramento de "recursos" para viver: a água,
tão apreciada no Chaco bastante seco, os animais que caçam e comem,
as frutas que crescem no mato. Mas elas e eles não têm esse olhar
que somente vê a utilidade e define todo desde a escassez: as
florestas do Chaco não são pobres mas ricas, a vida dos que "ainda"
vivem nessas florestas não consiste nem consistia em sobreviver e
lutar. Enquanto isso, nós, ocidentais das sociedades "modernas" já
não podemos conceber uma vida que não esteja submetida às pressões
econômicas, como a de "ganhar-se a vida" lutando. Para muitas e
muitos de nós, é a única maneira de viver que resta, e é a que
consome todas nossas energias.

No entanto, os povos da floresta que chamamos isolados não precisam
"ganhar-se a vida". Eles a ganham quando nascem e a acham de novo e
depois a recriam com cada passo e todo dia. O mundo no que vivem, não
é seu inimigo, como é o nosso para nós. O mundo deles -que chamam
de 'eami', que significa mato (floresta), e também significa mundo-
os contém, os alberga e os abriga. É um mundo com o que vivem em
comunicação, esse é seu viver, e que ao mesmo tempo vive com essa
comunicação, o sentem, o olham, o reconhecem, pronunciam seu nome.
Respeitam esse mundo, receiam suas forças imensas, e sabem cuidar-se
das mesmas. Sabem que há uma maneira de conviver com o mundo que é o
"como deve viver-se", o "bom viver" e conseguindo viver assim, sem
incomodar o mundo, apenas comunicando-se com o mesmo e com o que cabe
a cada um, atinge-se um equilíbrio sagrado que é o que sustentou
este planeta durante um longo tempo, antes de nossa época, como fruto
de muitos equilíbrios guardados cuidadosamente por mulheres e homens
de muitos mundos. O mundo Ayoreo é apenas um deles...

A verdade é que não sabemos bem como estão de verdade, agora
mesmo. De sua vida de antes e de sempre, sabemos, através dos
depoimentos colhidos daqueles que foram arrancados de seu mundo pela
força, por missionários, e que conseguiram contar suas vidas. Mas
com os grupos ainda agora isolados ninguém tem contato. Somente
podemos discernir e colher, como frutos do mato- os sinais de sua vida
e seu andar, e interpretá-las à luz de nosso conhecimento e nossa
intuição. Mas no extremo norte e noroeste do Chaco vivem grupos
isolados mais abrigados por matos ainda contínuos e extensos; também
com mais e mais desmatamento nos arredores, mas ainda há um pouco de
tranqüilidade. Não é assim no sul, mais perto dos povos e das
cidades nossas do Chaco Central. Lá há homens e mulheres isolados
que escutam e recebem já cada dia a mensagem da destruição das
florestas e de seu simples desaparecimento. E seu andar de cada dia
já está marcado pela mesma. Muitos de seus lugares já viraram "não
lugares", pontos do planeta que perderam seu rosto e seu nome,
desaparecidos que não voltarão e que no mundo Ayoreo "já não
existem". No entanto, desde o nosso, recebem novos nomes, os lugares
Ayoreo mortos viram lugares de nosso mapa, (um mapa da morte?)
conectados por nossos caminhos, determinados por nossas obras,
produtivos de acordo com nossa definição, classificados conforme seu
grau de utilidade para nós; alguns viram fazendas, outros, futuras
plantações de feijão-soja (se a Monsanto conseguir a anunciada
façanha da semente resistente à seca).

Enquanto isso, esses grupos Ayoreo isolados mais expostos vivem e
caminham entre fazendas e companhias pecuárias, sempre invisíveis,
mas já não tem aonde ir para não escutar o ruído dia e noite dos
buldôzeres que derrubam mais mato próximo ou o dos caminhões em
qualquer um dos muitos caminhos que impuseram o artifício da
quadrícula a seu mapa.

Sabem as mulheres Ayoreo isoladas e os homens contra o que estão
lutando? Há um tempo, deixaram nas bordas de seu mundo penas e sinais
xamanistas com o fim de deter a desaparição do mundo, mas debalde.
Devem perceber que o que tem na frente são poderes mais fortes que os
de seu mundo, forças que falam outras línguas. E devem começar a
duvidar de suas próprias forças, a sentir-se ameaçados e
debilitados.

Esta época do ano, os meses de fevereiro e março, é a época do
pimentão do mato, e são elas, as mulheres Ayoreo, que percorrem o
mato para colhê-lo. Este ano, as mulheres o farão com mais receio,
com muitas mais precauções, com o estalo incessante das máquinas
presente. Haverá menos pimentão. Não haverá pimentão de alguns
lugares porque já não existem. Da mesma forma que o pimentão,
também o caraguatá pertence ao mundo das mulheres, são elas as que
o colhem para transformar suas fibras no fio para as bolsas e tecidos,
seus escritos diários nos que entretecem vivências, crenças,
esperanças e sonhos.

As mulheres coletoras estão ameaçadas, da mesma forma que os
frutos que procuram, do mesmo jeito que os homens caçadores que
estão ameaçados como os animais que caçam. Com isso, a força
independente, diversa e única de seu mundo está em perigo.

O desmatamento -palavra que aqui, neste texto, soa tão abstrata e
que no entanto, no Norte do Chaco é tão implacavelmente concreta-
destrói tanto a vida quanto o equilíbrio do mundo Ayoreo aos poucos.
Destrói a liberdade, a autonomia e a vida que independe de dinheiro e
de supermercado; uma vida auto-sustentada e sustentável.

Lutar não é sempre guerrear e atacar. Às vezes é um florescer
silencioso, invisível e pacífico. As mulheres -e os homens- dos
grupos isolados lutam contra o desmatamento. Fazem isso com sua
presença e seu apego à vida, inseparável da vida de seus
territórios. Às vezes lutar é simplesmente estar e persistir, é
valorar-se e virar forte, e reconhecer e estar consciente da própria
riqueza.

Benno Glauser (Iniciativa Amotocodie, Chaco Paraguayo), email:
bennoglauser@gmail.com <javascript:location.href=>

inìcio <#0>

- As mulheres Garo de Bangladesh: a vida de um povo da floresta sem
floresta

Sicilia Snal (25) é uma mulher Garo da aldeia florestal Sataria na
floresta de Shorea robusta de Modhupur. Trata-se de uma superfície de
25000 hectares, sendo a terceira maior floresta de Bangladesh, um
país que tem uma das menores coberturas florestais per capita na
terra. Sicilia deve ir, como parte de sua rotina, até a floresta
vizinha para coletar lenha. Esse é um direito tradicional que ela e
os outros moradores sempre usufruíram.

Hoje em dia, essa histórica floresta nativa perdeu tudo menos o
nome. Diminuiu a menos de dez por cento de seu tamanho original. Isso
pôs à prova a forma de vida dos Garos, que ainda tentam aferrar-se
à floresta. Muitos foram mortos, torturados, encarcerados por causas
falsas; mulheres foram estupradas e tiveram que migrar às cidades
para se transformarem em trabalhadoras industriais, cosmetologistas,
empregadas do lar, etc.

Com escassa educação formal em seu afastado povoado, Sicilia
complementa a renda familiar trabalhando como diarista. E, ainda tem
uma carga adicional, ela continua coletando lenha da floresta vizinha
que foi reduzida a meros arbustos.

Sua vida mudou drasticamente no dia 21 de agosto de 2006. No início
da manhã desse dia ela foi coletar lenha como fazia habitualmente.
Quando voltava para casa, ela e outras mulheres Garo deixaram as
cargas que carregavam na cabeça para descansar um pouco. De repente,
ela foi surpreendida por um guarda florestal que disparou desde trás
com sua espingarda. Sicilia foi atingida. Mais de uma centena de
projéteis entraram em seu corpo; alguns atingiram vesícula e rins.
Ela ficou desacordada. Foi feita uma cirurgia em uma faculdade de
medicina na cidade vizinha para remover sua vesícula.

Alguns projéteis ainda permaneceram nos rins e só puderam ser
removidos depois de ela ter seu terceiro filho. Com cerca de uma
centena de projéteis nas mãos e nas costas, ela não consegue
realizar nenhum trabalho pesado. Como em outros casos, ela não
conseguiu justiça nos tribunais. O caso dela foi acrescentado a
outros milhares que ainda estão pendentes nos tribunais locais

Bihen Nokrek (35) de Joynagachha, outra aldeia florestal, foi morto
de bala disparada por guardas do Departamento Floresal (FD) na
madrugada do dia 10 e abril de 1996. Um comitê judicial formado por
um membro e liderado por um magistrado local elaborou um único
relatório final que, conforme uma fonte do FD, disse que o disparo
tinha sido justificado. Bihen Nokrek deixou mulher e
seis filhos definhando na pobreza e insegurança.

Renu Nekola, uma mulher Garo da aldeia Kakraguni na mesma região
foi encarcerada durante mais de um mês e meio por “danos à
floresta” em 1992. Conforme Nekola, ela foi detida enquanto coletava
lenha da floresta no dia 12 de dezembro de 1991. Nekola foi pega com
um pequeno machado nas mãos sendo acusada por cortar uma árvore. O
magistrado de um tribunal local a puniu com um mês de prisão. Mas
ela já tinha passado um mês e 23 dias na prisão antes de ser
proferido o veredicto conforme a lei florestal.

Sicilia Snal, Bihen Nokrek e Renu Nekola são descendentes de um
tribo Garo matrilinear que se estabeleceu nessa floresta há séculos.
Eles fizeram uma longa viagem do Tibete. A maior parte dos Garos
habita no estado indiano de Meghalaya. A floresta era densa e cheia de
vida antigamente. As pessoas cultivavam tudo. Durante séculos eles
praticaram a cultura de roça e queima também nas terras altas,
localmente conhecidas como Chala.

Na sociedade matrilinear dos Garo, as mulheres têm propriedades,
fazem tudo, podem escolher seus maridos, e são vistas em todos os
lugares fazendo todo tipo de trabalho pesado nos campos e em suas
casas com um ar de liberdade, em agudo contraste com as mulheres da
sociedade Muslim. Enquanto na sociedade Muslin as mulheres são
obrigadas a muitas restrições, as mulheres Garo são iguais aos
homens. Elas fumam tabaco e bebem com seus maridos. Elas não ficam
bravas se alguém comete adultério. As ofensas podem ser resolvidas
com a em troca de um poucos porcos que são consumidos por todo o
povoado em um clima festivo. É um povo lindo com mentes lindas que
cresce na floresta. Tal situação nunca será vista na maioria das
aldeias bengalis.

Essas crianças das florestas, que já vivenciaram uma vida
pacífica nas aldeias florestais, agora estão expostas ao mundo de
fora devido ao rápido desaparecimento da floresta. O principal fator
recente para a perda drástica de florestas nativas em Modhupur e
outros lugares é a plantação de monoculturas com espécies
exóticas de eucaliptos e acácia financiada pelo Banco Asiático de
Desenvolvimento (ADB, pela sua sigla em inglês) e o Banco Mundial. As
plantações de monoculturas em rotações curtas têm efeitos severos
e multiplicativos. Mais recentemente, estranhos iniciaram plantações
comerciais em grande escala de banana e abacaxi entre outras.

Sem florestas, a vida das mulheres Garo em particular tornou-se
difícil e perigosa. A lenha e os alimentos florestais que as mulheres
sempre coletaram da floresta tornou-se escassa. Elas ainda vão à
floresta que ficou reduzida a maleza e devem enfrentar “pistoleiros
e armas”. Os guardas armados do Departamento Florestal, os grupos de
bandidos florestais, às vezes os militares e os comerciantes de fora-
todos juntos- provocam- causam dificuldades insuperáveis para as
mulheres Garo especialmente. Sicilia Snal e Renu Nekola são apenas
duas dos milhares de mulheres que enfrentam balas, estupros e outros
tipos de assédio em sua vida quotidiana nas florestas.

O severo desmatamento, plantações e invasão dos estranhos nas
aldeias florestais forçam as mulheres Garo a migrar às cidades. Um
fato estonteante sobre as mulheres Garo na capital Dhaka é que se
você visitar qualquer salão de beleza, você verá moças GAro
trabalhando tranqüilas e sorridentes. Também podem ser encontradas
nos centros de fisioterapia. São as mais confiáveis como empregadas
nas casas dos estrangeiros. Uns milhares de moças e mulheres Garo,
desarraigadas de suas terras e florestas, fazem uma chamativa
diferença na capital. Elas são mulheres extraordinárias com
diferentes valores. Os tipos de trabalho que “contaminam” outras
mulheres das sociedades patriarcais. A psique delas faz que elas sejam
verdadeiramente iguais aos homens. Por isso, onde estiverem, elas são
as que produzem as mudanças.

As mulheres Garo levam para seus povoados a renda que elas obtêm
nas cidades. A floresta desapareceu da maior parte de seus povoados,
mas elas se mantêm fortes. e ensinam as pessoas de outras sociedades
as lições que precisam aprender. Elas sorriem diante de todas as
adversidades que devem enfrentar. Elas não têm títulos das terras
onde elas constroem suas moradias nos povoados florestais, mas são as
únicas que mantêm as sementes da floresta. Se derem a chance, a
floresta pode florescer novamente nas mãos delas.

Por Philip Gain, Society for Environment and Human Development
(SEHD), Bangladesh, email: sehd@citech.ne <javascript:location.href=>
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inìcio <#0>

- Brasil: por quem e por que lutam as mulheres, também no Dia 8 de
Março

Que é a felicidade? Poderíamos ter muitas respostas e poderíamos
até considerar que ser feliz é um assunto estritamente pessoal.
Todavia, pelo menos dois aspectos da felicidade são universais: todas
e todos a queremos, e dificilmente alguém pode declarar-se feliz se
tiver fome, frio, falta de casa, falta de acesso ao conhecimento
construído e acumulado pela humanidade.

Como estamos em termos de ‘coeficiente de felicidade’? Desde o
ponto de vista de ser mulher, muito mal. Desde o ponto de vista de ser
camponesas e trabalhadoras, muito mal. Desde o ponto de vista de ser
mães, mal.

Mal, por que?

Dentro de casa, o serviço doméstico ainda é considerado “tarefa
feminina”, onde os homens que dizem já haver superado o machismo
“ajudam” a fazer, mas não tomam essas tarefas como suas. As
posições sexuais comumente femininas são usadas para achacar e
minimizar pessoas, por exemplo alguns refrões de torcedores no
futebol. Ser “mulherzinha” é ser nada, é ser escravo, é ser
objeto.

Ser mãe não é apenas “padecer no paraíso”. Os locais de
trabalho, as escolas, espaços públicos e privados, mui poucos
disponibilizam cirandas infantis para que as mães possam estar
efectivamente nas atividades, sejam quais sejam. Ao buscar trabalho, a
pergunta: “tens filhos?” pode ser o começo da dispensa. Em geral,
o individualismo tão cultivado na modernidade não reconhece as
crianças como responsabilidade coletiva, como pessoas cujo bem estar
deve interessar a todos e todas. Filhos são responsabilidade
unicamente de suas mães.

Como trabalhadoras ainda recebemos menos que os homens pelo mesmo
trabalho fora de casa. Muitos chefes e patrões consideram as
trabalhadoras também como objetos sexuais. E como camponesas,
sofremos diretamente os impactos do avanço do capitalismo no campo,
na forma de atuação das empresas transnacionais do agronegócio.

Ademais de tudo isso, somos espancadas e violentadas diariamente, e,
o que é mais triste ainda, com um alto índice de violência
praticada por pais, maridos, filhos, tios, avós..., ou seja, uma
violência nascida dentro da família.

Voltemos à questão das camponesas. Poderia parecer que é um curso
“natural” do desenvolvimento humano a desaparição de ofícios,
como ocorreu na Revolução Industrial; logo, a desaparição das
camponesas também seria “natural”, pois que a “modernidade”
avança para o campo. Também poderia parecer que a população que
vive nas cidades não tem nada que ver com as ocorrências do campo,
como com a violência das empresas do agronegocio contra as camponesas
e camponeses.

Atentando para o que comemos, podemos ver duas opções nas cidades:
comida “industrializada”, e comida “natural”. Como comida
industrializada estamos falando de redes de fast-food e alimentos
prontos nascidos da Bunge e outras empresas. Por comida natural
estamos falando de leite, grãos, frutas, legumes, etc. cuja
produção está entre 60 e 80% respondida por camponeses e
camponesas.

Os efeitos de ambas as opções alimentares estão já bastante
evidenciados. Altos índices de obesidade, câncer, suicídios,
depressão e uma ampla variedade de enfermidades por dietas tipo
McDonald. Nunca ouvimos falar de alguém doente por comer alimentos
saudáveis produzidos pelo campesinato.

Logo, a tarefa de produzir a alimentação, imprescindível para a
felicidade de qualquer pessoa, não pode ser um negocio, e em toda a
história da humanidade as camponesas foram protagonistas em garantir
alimentação de todos e todas.

O negócio de empresas transnacionais como Monsanto, Syngenta,
Nestlé, Bayer, Cargill, Dupont, Basf, não é produzir comida, é
produzir lucros. Nesse caminho de sempre buscar lucro, vão tentando
exterminar o campesinato. E as primeiras afetadas são as mulheres
camponesas.

Onde avança o agronegocio, recua o campesinato. Os poucos postos de
trabalho que permanecem, são ocupados por homens mal pagos e muito
explorados; para as mulheres, as alternativas são: migrar para
cidades, ficar em casa totalmente dependentes, ou prostituir-se.

Para toda a sociedade isso significa menos trabalho, menos comida,
menos moradias, mais violência. Que felicidade esse modelo pode
construir? Se até mesmo o orgulho de saber e poder produzir o
alimento, e a identidade campesina, herdada e aperfeiçoada a cada
geração, podem ser roubados pelas empresas do agronegocio?

Quando uma empresa patentea uma semente, que é um patrimônio dos
povos e deve estar a serviço da humanidade, está roubando os saberes
construídos historicamente pelos campesinos e campesinas.

Em várias regiões do Brasil, as empresas de celulose estão
espalhando seus desertos verdes de eucaliptos. Na Bahia, no Espírito
Santo, no Maranhão, no Rio Grande do Sul, Stora Enso,
Votorantin/Fíbria, Suzano, vão arrancando povos indígenas,
descendentes de escravos, camponeses e camponesas de suas terras, e
instalando seus exércitos clonados, na forma de eucaliptos e na forma
de soldados.

Nós, as camponesas, nativas, negras, do Movimento Sem Terra e da
Via Campesina, nos lançamos contra o projeto de morte das empresas
transnacionais. Nesse 08 de Março reafirmamos nossa luta, porque 08
de Março é dia de rosas, sem deixar de ser dia de continuar a luta,
de pôr abaixo os eucaliptos e a fome que eles representam.

Anunciamos em nosso manifesto que “a gente não quer só comida, a
gente quer alimento saudável, a gente quer soberania alimentar!” No
Brasil, segundo pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), 80% das pessoas sem acesso à renda são mulheres. O cambio
dessa situação passa pela construção da soberania alimentar.

O que é Soberania Alimentar? É um povo, mulheres, homens, jovens,
idosas e idosos, decidir o que quer em sua alimentação, e ter
capacidade de produzir e consumir alimentos saudáveis, na quantidade
necessária e de acordo com sua cultura. Soberania alimentar implica
em uma transformação cultural, onde estão contempladas novas
relações entre as pessoas.

Alguns tentam desqualificar nossas lutas nos chamando de criminosas,
de ignorantes, nos comparam aos quebradores de máquinas que agiram
quando o sangue das trabalhadoras e trabalhadores têxteis começou a
ser derramado durante a Revolução Industrial.

Qual é nosso crime? Derrubar eucalipto para produzir alimento?
Barrar o roubo do patrimônio coletivo, como são as sementes,
repelindo as sementes transgênicas patenteadas? Propor a construção
de uma sociedade com pão, com água, com ar, educação, para todas e
todos, esse é o crime e a ignorância?

Para construir soberania alimentar, precisamos combater o
agronegocio e o avanço do deserto verde de eucalipto. Soberania
alimentar é base da felicidade de um povo, pois implica em alimentos
abundantes, saudáveis e acessíveis, e novas relações entre as
pessoas, e entre pessoas e ambiente.

Homens, tenham em mente que uma mulher que convive, que luta ao lado
de um homem que se declara machista, é como um escravo convivendo com
alguém que se declara escravista. Que relação de igualdade e
respeito pode existir numa situação assim?

Quando lutamos por uma nova sociedade, com soberania alimentar,
lutamos por nossa felicidade, pessoal e coletiva. No Dia Internacional
da Mulher Trabalhadora, continuamos lutando por comida, mas, não
queremos só comida, queremos soberania alimentar, queremos ser
felizes em nossa vida no campo.

Por Janaina Stronzake, MST de Rio Grande do Sul, correo
electrónico: terrajana@gmail.com